Eu preciso escrever sobre minha mãe, sobre a minha dor, sobre os últimos minutos de sua vida, o seu decesso. Escrever para mim sempre foi uma forma de exteriorizar sentimentos, ora bons ora ruins. Entretanto, busco palavras que possam resumir em missivas lembranças de alguns anos atrás, porque as presentes não trespassam da minha mente em intervalos de minutos e as vezes em segundos.
Minha mãe foi uma batalhadora, criou três filhas com muito sacrifício e nos deu o que tinha de melhor, o seu eterno amor. Que não demorou muito também presenteou todos os seus netos com ele, com sua dedicação e com sua verdadeira estima que por congénere, também eram três. Um trio de “r”: Renata, Rodolfo e Rafaella. Era uma pessoa alegre, divertida. Gostava de tomar suas cervejinhas e fumar também. Talvez esse último tenha sido o seu grande pecado capital. Pois segundo os médicos a sua doença “neoplasia de bexiga” foi adquirida por esse maldito vício. Mas doença não dá em poste e também não dá somente em fumantes, sendo assim, não morreria crianças e tampouco aquele que nunca teve nenhum tipo de vicio. Foi ótima filha e tinha grande admiração por seus onze irmãos.
Existiu uma época em que minha mãe era julgada por todos da família por suas atitudes. Que eram tolas como os que a julgavam. Por beber demais e ficar às vezes doidona. Por ter vários namorados ainda muito jovem e por coisa tão hipócritas que não vale lembrar. Foi a mais desventurada em dinheiro e patrimônio, entretanto, foi a que mais se dispôs a ajudar. Não tinha religião, mas gostava de escutar as rádios que transmitiam missas católicas e tinha um pé voltado para o espiritismo. Diversas vezes foi ao centro comigo assistir palestras cujo teor era sobre a vida após a morte, acreditava em Deus. Minha mãe sempre ao deitar sentava a beira de sua cama e ficava longos minutos em silencio, orava por todos da família, e pedia por todos os que já não estavam mais presente entre nós. E desde muito já fazia este ritual. Hoje ao me deitar observo sua cama vazia e vem em minha mente este episódio e tento do meio jeito orar e cansada e pensativa, adormeço.
Enfim, voltando para o objetivo principal deste texto... Quando teve ciência de sua doença nunca culpou ou cobrou DELE o porquê, quando a maioria o faz. Mas a minha querida mãe havia sofrido uma impactante dor há dez anos, quando minha irmã caçula havia morrido de mal súbito. Foi naquele momento que minha mãe guerreira se deixou ser derrotada pelas circunstâncias e dali por diante foi uma morta-viva até sucumbir de verdade.
Foi uma doença devastadora, lhe tomou o corpo, maltratando-o, fragilizando-o. Nunca presenciei reclamando por tal situação a não ser pela dor que transparecia no seu semblante. Apesar de todo sofrimento visível minha mãe foi embora sem se indignar com que a vida lhe tinha proporcionado.
Antes do fato irremediável, iniciaram com as idas e vindas das clínicas, da radioterapia, dezenas de exames, as corridas as emergências quando a situação começou a sair de controle. Reconheci o fato que minha mãe morreria e queria ter o poder de adiá-lo. Passar o último natal em casa conosco e iniciar um ano com esperança, quem sabe um milagre! Debalde, era tarde demais. Mas antes disso houve a tentativa de negociar o prazo de sua morte, através de promessas e orações por nós familiares.
Mas chegara o dia...
Eu estava lá... próximo ao seu leito. Meu pensamento era que Deus me desse força para aceitar o fim próximo, fiz uma revisão da vida, aduzindo-me quieta e pensativa. E fui naquele momento um instrumento testemunhal na preparação da perda iminente do seu último suspiro. Naquele exato momento meus reflexos era de aceitação, resignação à vontade do Criador! Fiquei mais próxima que pude e em silêncio olhei dentro dos seus olhos verdes incrustados fixado num ponto sem direção e tornando difícil e custoso para o meu congraçamento de que realmente tudo aquilo estava realmente acontecendo...
Mas se foi desígnio o intento de estar nos seus últimos instantes de vida, assisti-la morrer... creio e acredito que me confiaram para esta tarefa. Apesar de estarmos assistindo o desfecho final de minha mãe, digo nós porque havia uma jovem de 26 anos no mesmo quarto. Seu leito estava espaçado mais ou menos um metro e meio a dois do leito onde já perecia o corpo de minha mãe. Tive a sensação de não estarmos só naquele momento, tive a impressão que minha mãe estava sendo amparada por pessoas que estavam invisível para mim, porém não mais para ela. Senti uma brisa estranha, uma olência diferente. Desta forma aquele momento consternado, tétrico, lúgubre para mim, para minha mãe foi de liberdade de um corpo doente e sofrido. Liberta deste mundo material, de seu corpo carnal, de suas mazelas, de suas dores, de sua escara e tudo que lhe causou tristeza durante os últimos dez anos dos seus setenta e três anos de vida. Minha mãe retornava para seu lugar de origem, seu lar espiritual, seus entes queridos pelo quais ela chorou. E naquele momento acredito que minha mãe estava nos braços de minha querida irmã que tanto sofreu por sua ausência. Agora ambas felizes pelo reencontro, talvez um forte e longo abraço de uma mãe e filha que não se viam há dez anos ou melhor que não se abraçavam há muito tempo, assim eu imaginava estar acontecendo. Minha mãe estava indo embora, uma viagem sem bagagem, sem despedidas, sem delongas, sem adeus. O retorno para a pátria espiritual com a alegria de quem vai rever os entes queridos e uma tristeza imensurável para quem fica.
Destarte, acredito que minha mãe partiu feliz...
