O
relógio já batia as primeiras horas do entardecer. Era verão e,
por este motivo, ainda se podia ver os reflexos de um sol escaldante.
Um sopro quente adentrava as copas das árvores, espantando o
adormecer das andorinhas, que concentravam olhares de espectadores
desavisados, ao vê-las voejar.
O
calor era o mais alto já registrados nos termômetros dos últimos
três anos na graciosa e violenta cidade de Rio de Janeiro.
Na
rua arborizada transitavam carros e pedestres freneticamente. O
trânsito era lento e de vez em quando aturdia os ouvidos com a
repetição cansativa de alguém sem paciência, despertando olhares
com buzinas aficadamente ruidosas. Ao longe já se podia ouvir a
sirene de uma ambulância aos berros pedindo passagem. Rapidamente
sobrestá diante do gigantesco portão azul e este se abre para
ingressar a viatura que além dos paramédicos conduzia o acamado de
nome Itamiro. Um homem forte, alto, de pele negra e de nariz revirado
na ponta. Isto é, soberbo, petulante e muito mal educado.
_
Uh! Ai, ai, ai… gemia o arrogante e destemido latagão que agora se
encontrava deitado em uma maca com odor de sumo de corpos que já
passaram por ali em péssimas condições físicas.
_Calma,
doutor! Chegamos! Agora o senhor será atendido. Dizia um dos
auxiliares da ambulância com intuito de amenizar o sofrimento
daquele homem.
_Calma
uma porcaria! Como posso ter calma se vocês me chacoalharam até
chegar aqui. Estou sentindo muita dor e se vocês fossem subordinados
a mim, vocês conheceriam a minha força e meu látego. Murmurou
entre os dentes aquele homem pedante.
Depois
de algumas horas Itamiro já se encontrava em um quarto reservado,
aguardando a visita do médico e seus primeiros exames.
Gaspar
era um médico muito respeitado por toda sua classe e por seus
pacientes. Um homem sábio, contemporâneo, dono de um conhecimento
vasto. Rebuscava na modernidade o estudo sobre a ansiedade e atitude
conflitantes dos seres humanos. Uma saída para tantos transtornos
físicos e mentais, esse era o seu maior foco e objetivo para tanto
empenho em suas pesquisas. Sua estatura muito alta e de pouco tecido
adiposo se espalhava de forma uniforme em todo o seu corpo esbelto.
Seus cabelos já pronunciava o entardecer do outono. Usava óculos de
aros pretos que sobressaia os seus grandes olhos verdes. Sempre
impecável. Usava sempre um jaleco de brancura imaculada, onde se
podia ler em bordado azul: “Dr. Gaspar”.
Ao
entrar na pequena suíte hospitalar onde se já podia ouvir sussurros
de funcionários sobre a arrogância do achacado do quarto número
oito, dera um breve toque na porta com as pontas das falanges
proximais anunciando sua entrada para o primeiro convívio com aquele
ser que já alguns minutos anteriores de impaciência já mostrava
seu estado de espírito.
Nos
corredores o burburinho se achegava aos ouvidos de outros acamados,
além de todo o hospital já comentando sobre o “fátuo Itamiro”!
Isto é, o arrogante Itamiro. Que se julgava o melhor que os demais
em sua volta.
Ao
descerrar a porta está rangeu baixinho…
_Boa
noite! Dissera pausadamente o médico olhando para o seu relógio no
pulso esquerdo.
_Já
era tempo! Estou com dores horrorosas. Estou lhe aguardando até
agora. Respondera o presunçoso e arrogante latagão.
_Desculpe
senhor Itamiro. A demanda é grande hoje. Estudei o seu prontuário
antes de chegar aqui. E pelo que entendi o senhor está com
dificuldade de andar devido a essa dor.
_Sim
doutor! Uma dor insuportável!
_A
princípio pedirei alguns exames de rotina. Hemograma completo,
exames de urina e vou pedir também radiografia da bacia e uma
tomografia computadorizada. Com certeza através desses exames
saberei por onde iniciar o seu tratamento. Em quanto isso o senhor
continuará com os analgésicos até que se conclua os resultados de
todos os exames. Por hora é isso. Calmamente comunicou o médico.
_Isso
é um absurdo! É isso que o senhor tem pra me dizer? Respondeu em
tom de severidade o entufado Itamiro.
O
médico calmamente olhou outra vez para o seu pulso esquerdo e
serenamente lhe disse:
_Senhor
Itamiro! Aqui não é o seu quartel. Aqui no hospital não estão os
seus subordinados trabalhando. Aqui somos uma equipe que juntos
conseguiremos resolver o seu problema de saúde. Por favor, não se
exalte! Relaxe o quanto o senhor puder para que possamos fazer esse
tratamento e obter resultados. Tenha uma boa noite de sono. E saiu
batendo a porta suavemente.
_Não
sabe com quem está lhe dando. Resmungou baixinho Itamiro. E
impaciente com a espera adormeceu.
No
dia seguinte foi um entre sai de enfermeiras. Pela manhã coletaram o
sangue e depois a urina.
Ao
entardecer doutor Gaspar foi conversar com Itamiro e falar sobre os
primeiros resultados dos exames coletados naquela manhã. Não
precisou bater a porta, visto que já se encontrava aberta.
_Boa
tarde, senhor Itamiro! Com tom comedido, porém resoluto.
_Boa
tarde, doutor! Respondeu com certa preocupação pelo que o médico
em poucos minutos iria lhe dizer.
O
médico ao examiná-lo continuou a falar:
_Seus
exames laboratoriais não deram nenhum resultado que possa lhe
preocupar, entretanto, nos exames de imagens, tanto da radiografia
como a tomografia computadorizada observamos algumas imagens não
muito definidas ou melhor, não as que são observadas comumente.
Em
seguida pegou as radiografias e as colocou negatoscópio e com muito
trato foi explicando aquele homem soberbo agora ali ressabiado pelo
que talvez viria pela frente.
_A
parte óssea da pelve é conhecida como bacia. Ela conecta a coluna
lombar aos membros inferiores e é formada por três estruturas
ósseas: hemi pelve esquerda, hemi pelve direita e sacrocóccix.
Estas três grandes estruturas articulam-se posteriormente através
das articulações sacroilíacas e anteriormente através da sínfise
púbica. Doutor Gaspar analisava atentamente a imagem e
simultaneamente explicava para aquele homem que agora se borrava de
medo e não conseguia acreditar no que estava vendo na imagem. Na
ilustração radiográfica se via nitidamente o osso da bacia e
diversas mandíbulas ósseas e pequenos ossos como: carpo, metacarpo
e falanges agarrados nela. Semelhante as cracas e crustáceos
grudados nas rochas.
_Doutor,
isso é surreal! Gaguejou e nervoso não parava de peidar.
_Por
favor, contenha-se até que eu termine. Retrucou o médico, sem
disfarçar apertando as narinas pois o odor desagradável se
esparramara por todo quarto. E para seu alívio foi chamado por uma
enfermeira para atender outro paciente naquele exato momento. Saiu
dando graças por tão oportuno momento se livrando do soberbo e
também cagão.
Itamiro
jamais acataria ordens de ninguém e, no entanto, se sentia pequeno
diante daquele magricela. Doutor Gaspar fora indicado por um
conhecido seu que tivera um problema semelhante. E este buscou e
encontrou a razão e a natureza da afecção, da doença.
“Coronel
Itamiro!” Assim ele gostava de ser chamado. Nos últimos seis meses
andava de perna aberta e mal conseguia andar. Seus testículos
estavam enormes, toda sua virilha ficara intocável. Sabia que seus
subordinados fazia chacota com o seu problema. E ouvia os sussurros:
_Lá
vai o sacudo! Diziam uns…
_Coronel
porta-saco! Cochichavam outros…
“Aqueles
safados e limpa-botas estavam sempre conspirando contra ele”. Ficou
por horas pensativo e adormeceu.
O
doutor não voltara aquela noite.
No
dia seguinte por volta do entardecer o médico entrou no quarto oito
e começou a indagar o paciente.
_Senhor
Itamiro, há quanto tempo começou o intumescimento nos seus
testículos?
_Intu…o
quê doutor?
_Inchaço!
Respondeu o médico com objetividade, já que o ufano não
compreendera a pergunta.
_Ufa!
Eu tenho vinte e cinco anos nessa corporação.(GUARDA CIVIL DO
ESTADO DO RIO DE JANEIRO) Acho que uns seis meses comecei sentir um
pouquinho de dor. Mas sabe como é…deixei pra lá. A coisa foi
piorando e agora…
o
resto o doutor sabe. Respondeu com orgulho pelo tempo de casa e logo
em seguida com ar de preocupação, aguardando o que tinha o médico
para lhe dizer.
_Acho
que se não entendeu a minha explicação das imagens de radiografia
e tomografia pelo menos conseguiu observar o que viu nelas. Está
muito claro que se vê agarrado no osso de sua bacia, diversas
mandíbulas e ossos dos dedos que o senhor deve saber de quem, não é
mesmo? Ironizou o médico levantando a armação dos seus óculos
para o osso do nariz.
_Não
entendi… respondeu confuso Itamiro.
_O
senhor foi acometido pela “Síndrome de Crustáceos”. É uma
doença do nosso século, porém sua existência é de tempo remoto.
_Que
dizer que tenho essas coisas agarradas no meu saco, doutor? Levando
as mãos para sua virilha como se tivesse acreditando que “os
crustáceos” estivessem agarrados ali.
_Na
verdade foi dado esse nome por existirem espécies de crustáceos que
vivem fixas nas rochas, cascos de navios, como cracas. Para que o
senhor entenda melhor o que está acontecendo, vou lhe dar uma breve
explicação: As “cracas humanas” em sentido figurado é claro...
Continuou o médico discursando.
_Se
dispõe a cumprir ordens de modo humilhante, são pessoas que atende
as vontades de uma outra pessoa de maneira submissa. As pessoas no
geral são preguiçosas e oportunistas. Querem moleza e terminam se
sujeitando a fazerem coisas pra se darem bem. São homens, mulheres.
Um bando de cracas energizados no seu saco! Se é que o senhor me
entende! Perseverou o médico.
_Doutor
sinceramente… não estou entendendo. Disse então Itamiro com
receio de levar uma bronca.
_Já
que o senhor insiste na clareza dos fatos. Não pouparei meu
linguajar. Na sua bacia está acumulada uma energia que vem
ocasionando todo esse seu problema. Os lambes bolas, os puxa-sacos!
As mocinhas oportunistas que permutam numa “trepadinha” por um
lugar, uma posição melhor no trabalho. E assim a vida segue
prejudicando de verdade quem é profissional. Nas suas bolas está
tudo isso que falei, acredite!
_Que
isso? Suspirou perplexo e apavorado, o sacudo.
_Sempre
vai ter os bajuladores, os mordes bolas, as vadias. E não pense que
o senhor é o único. Me procurou da sua corporação o coronel
"Melão", o coronel "Riacho", e outros mais.
Enfim, tudo isso, vocês fazem para manipular e monopolizar o poder.
_Nunca
pensei dessa forma. Retrucou Itamiro envergonhado.
_E
não pense coronel Itamiro que sua mandíbula não está da mesma
forma energizada no saco de alguém por ai. Uma vez bajulado,
bajulador igualmente foi.
Itamiro
ficou mais preto de vergonha. O médico tinha razão. Ele também
tivera que bajular muito pra chegar na sua patente. Com um sorrisinho
morto no canto da boca perguntou ao médico:
_Eu
vou morrer doutor?
_Não!
Como se trata de energia acumulada os remédios por si só não serão
suficientes para o tratamento. Sugiro a cada três horas do dia
pensar nas pessoas que o senhor prejudicou e nas pessoas que de
alguma forma cooperou para o seu problema: “os seus puxa-sacos e
lembe bolas” e nesse momento banhar os seus testículos com erva de
arruda e sal grosso. E daqui pra frente leve para a sua vida e para
os seus subordinados a citação: “de um grande e renomado
psiquiatra, Augusto Curi, Quem vence sem riscos, triunfa sem
glórias.”
_Mas
isso vai queimar minhas bolas, doutor! Questionou Itamiro preocupado
e sem dar importância no que o médico acabara de falar.
_Se
quer tirar essa inhaca energizada, faça esse banho e mais os
remédios. Respondeu o médico com veemência.
Itamiro
não soube o que dizer. Não podia contestar as palavras do médico.
Contudo, se sua atitude de ter em seus pés aquilo que no momento lhe
apetecia, muito pior era a atitude de quem se propunha a tal façanha.
E pensou com os seus íntimos e petulantes botões: “que grudem
mais mandíbulas de gostosonas na porra do meu saco”.
Depois
de muita conversa doutor Gaspar prescreveu uma receita e assinou a
alta clínica no prontuário de Itamiro. Em seguida chamou pelo
interfone um responsável da equipe de enfermagem para os últimos
procedimentos de medicação.
_Senhor
Itamiro, continue com esses remédios durante seis meses e depois
retorne para uma nova avaliação. Tudo bem? Indagou doutor Gaspar.
_Sim!
Respondeu Itamiro conformado.
Por
conseguinte, o médico saiu e foi continuar o seu trabalho rotineiro
no hospital. Após, vinte minutos entra uma morena clara, baixinha,
de fiofó carnoso, chamando logo a atenção daquele esfaimado por
poder e bunda.
_Boa
tarde, senhor Itamiro. Aqui a guia de liberação do hospital.
Dissera com voz de quem quer alguma coisa em troca.
_Obrigado!
Qual o seu nome? Curiosamente Itamiro ficou a observando.
_Danúsa!
Respondeu melosamente.
_Muito
prazer, Danúsa! Como você deve saber eu sou o coronel Itamiro. Vou
ser bem objetivo. Eu acho um desperdício uma mulher linda como você
trabalhar aqui.
_É,
eu também acho. Respondeu sem nenhuma modesta.
_Com
o conhecimento que tenho posso te tirar daqui e achar um lugar mais
tranquilo. É só você querer. Sussurrou quase no pé do ouvido
daquela rapariga fácil, fácil.
_Coronel,
como o senhor eu também sou objetiva. Eu ainda não me pus na sombra
de um boi e acho que agora essa oportunidade surgirá com o senhor.
Falou com certa segurança e artimanha.
Em
seguida foi até a porta e a trancou.
Itamiro
a seguiu com os olhos e a lambendo com a testa!
Danúsa
em seguida pega as luvas e as calças. Toma posses do frasco de
hidratante do acamado e vai até o leito. Itamiro já com os olhos
semifechados adivinha o que vai acontecer naquele momento. Danúsa
unta de bastante creme suas mãos e suavemente foi lhe apalpando as
bolas inchadas e…
E
o resto, como tudo na vida, é conclusão.