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quarta-feira, 21 de julho de 2021

A Andarilha

 



Júlia perambulava entre ruas desertas, prédios e casas em ruínas se despontavam a cada passo. Assustada e sem compreender aquele momento que se desnudava em tragédia e abandono, supôs que morrera e se encontrava no inferno. Olhou tudo em sua volta e não viu nada que a arremetesse a sua vida. Suas roupas surradas e pés nus, teve a certeza que estava aprisionada em seus delírios. Ouviu um sussurro frio nas pontas das orelhas, ficou quieta por instantes observando o sopro do vento adentrando e circulando pelos escombros espalhando uma poeira sem cor. Sentiu umedecer suas faces com leves gotículas geladas imediatamente intensificadas. Desperta, levantou-se da cama e correu para fechar a janela.

Amanhecera em tempestade.


terça-feira, 20 de julho de 2021


 






Desmanchou-se em suas entranhas e gozou o mais profundo de sua macieza.


Desmanchou-se no colo assentado e gozou no mais profundo de seu psique.


Deixou ser vasculhado até o âmago de suas entranhas e adormeceu.







 



A poupa amarela e suculenta foi devorada quase até o caroço. O que sobrou ficou preso nos dentes.


MEUS AVÓS MATERNOS!

 

GRATIDÃO! “PAI PAULO E MÃE NENÊ!”




Sou eternamente agradecida por meus avós maternos. Em sua existência de vida sempre foram almas grandes. Com toda vida miserável que viveram, uma vida dura de labuta e de muito sofrimento educaram doze filhos, e alguns netos, e bisnetos.

Lembro-me de uma casa modesta e das lamparinas de querosene que quando acesas adentravam nas penumbras escuras da casa e de minha alma. O ar se confundia com o odor sutil da fumaça daquele combustível que mantinha despretensiosamente o fogo no pavio, clareando ainda que pouco, o ambiente.

O silêncio tomava conta de toda casa quando caía a tarde. Após a janta e depois de toda louça lavada e guardada, e a cozinha impecavelmente limpa, íamos para a sala de jantar. Uma mesa grande e seis cadeiras, uma cômoda e uma cristaleira que exibia taças e louças pelas portas de vidro em desenhos alto-relevo. Móveis antigos de cor escura que se fosse comprar o hoje seria uma pequena fortuna, comparada com os de hoje que são descartáveis, não perduram mais de cinco anos devido à qualidade do material. Nas minhas lembranças vejo um quadro de parede. Uma pintura antiga, talvez renascentista, cópia com certeza, eu ficava hipnotizada com aquele quadro, minutos antes de começar o culto evangélico que meu avô presidia. Numa das cabeceiras, lia trechos da bíblia, e depois colocava com suas próprias narrativas, palavras de um homem com pouco estudo, porém com a retórica de um homem do bem e cristão. Naquela época com pouca idade achava chato, me distraía com as lagartixas que jogava suas línguas para capturar os insetos. Eu ficava admirando a destreza e agilidade delas. Seus grandes olhos em cima de suas cabeças e seus longos rabos finos circulando toda parede fazendo com que eu as seguisse com meu olhar de curiosa. Elas corriam de um extremo ao outro da parede, entretida com aquele momento, seria eu uma presa fácil se fosse um inseto. Todos ao final do culto tinha que fazer uma oração agradecendo e pedindo a Deus aquilo que fossemos merecedores. Nessa época aprendi falar com Deus com minha voz tímida e trêmula. Depois que orávamos um a um, nos recolhíamos para os quartos e dormíamos com os mosquitos azucrinando os ouvidos e picando nossas peles.

Nessa rotina viviam meus avós, tios, tias e minhas irmãs.

Meus avós tiveram uma vida árdua de trabalho braçal. Plantava o nosso sustento e criava animais. Pai Paulo e Mãe Nenê! Assim todos e netos, e bisnetos os chamavam. Nunca usamos as palavras avô e avó. Meu avô quando estava de folga de seu trabalho dedicava-se a colheita das verduras e hortaliças. Abarrotava seu carrinho de mão e saia pelos quarteirões do bairro para vender de porta em porta. Eu algumas vezes fora com ele e ficava admirada com aquele homem pequenino e franzino com tanta disposição para trabalhar. Educou doze crianças sem ajuda de governo ou qualquer coisa que fosse do gênero. E todos foram educados, respeitosos e do bem.

O carrinho sempre voltava vazio e meu avô retornava ao lar cantarolando algum hino que costumava cantar nos cultos do lar e da igreja. Ao seu lado eu o observava e sentia em sua voz mansa uma alegria que não sei mensurar lembrando hoje. Tantos anos se passaram e lembro dele com muita saudade. Quando ele faleceu, deixou um grande vazio em meu coração.

Tenho muita gratidão por ambos. Meu avô para mim, fora a referência de um pai, já que não lembro do meu e por ele ser ausente em nossas vidas. Minha avó nos maltratou quando criança e nutri certa época, ódio por ela. Mas, eu era criança e nessa idade não prestamos muito atenção nos adultos e muito menos em suas dores. Graças a Deus! Minha avó viveu por muito tempo e pude dissipar essa mágoa que nutri por muito tempo. Com a maturidade chegando, observei o quanto ela fora uma mulher sofrida com a vida. Ela ficara muitos anos sozinha depois do falecimento de meu avô e seus olhos expressavam muita gratidão por estarmos morando no mesmo quintal do terreno com ela e cuidar na velhice e na doença que trabalhava em silêncio. As netas que mais ela maltratou cuidou dela com muito carinho e sem rancor. Minha irmã Suzana era a que mais paparicava e fazia mimos para ela. Quando minha irmã faleceu de mau súbito, vi nos olhos azuis de minha avó tamanha tristeza e dor. Dali em diante todo amargor que eu sentira quando criança e adolescente por ela aquietou-se.

Anos se passaram e uma noite antes de minha avó ser internada por um câncer em fase terminal eu fora ao quarto dela para saber como ela estava. Deitada de lado com a cabeça no travesseiro seu olhar era vago e compreendi que minha avó “Mãe Nenê” estava se despedindo daquela vida de sofrimento. Olhei para dentro dos seus olhos e tive a percepção que ela sabia ser o fim. Perguntei se ela estava se sentindo bem, consentiu vagarosamente com a cabeça que sim. Permaneci alguns minutos deitada ao seu lado e acariciei sua nuca coberta de fartos pelos brancos e mentalmente me despedi e perdi perdão a ela por não entender a sua atitude para comigo e minha irmã. No dia seguinte foi a última vez que a vi com vida. Ajudando a colocá-la no carro rumo ao hospital era a certeza que não voltaria mais para casa.

Fecho meus olhos e vejo nitidamente o olhar azul-turquesa de minha amada avó se despedindo da vida naquela noite.


segunda-feira, 21 de junho de 2021

Telminha: A canhotinha de ouro!

 







Meu período de trabalho era um tanto exaustivo. Permanecia acordado durante vinte e quatro horas ininterruptas num repetitivo vai e vem. Ora eu estava na recepção, ora me encontrava na sala de exame radiografando pacientes com fraturas, luxações, etc.
Tal correria fazia de minha atuação um verdadeiro atleta. Sou técnico em radiologia de um grande e movimentado hospital do Rio de Janeiro.


A história que vou lhes contar, aconteceu numa época em que eu estava tão quebrado financeiramente, e não pude recusar esse convite tão inusitado.

Naquela época em que inúmeros “nãos” ecoaram dolorido em meus ouvidos e que as turbulências em meu orçamento eram constantes. Resolvi investir, ou melhor, insistir em outra categoria de remuneração diferente a minha profissão, já que não estava tendo muito sucesso para ingressar num segundo emprego dentro do meu ofício.

Trabalhando vinte e quatro horas semanais, o que restava das horas livres eram usadas para meu descanso e para o ócio.

Num desses dias rotineiros, depois da maratona de trabalho, peguei meu trem de volta para casa. Era mês de fevereiro e a temperatura de 40 graus do estafante verão carioca arrebatava qualquer um.

Olhei ao redor. Havia dezenas de pessoas aglomeradas no vagão do trem e eu tinha a impressão que éramos bonecos de panos amontoados naquelas latas unidas por elos sendo puxados pelo maquinista!

O sol nos seguia sem intervalos, e o calor fritava nossos cérebros e  meus pensamentos sem condolências. Os que viajavam sentados iam para lá e para cá numa alucinante coreografia rítmica. O balanço do trem e o som das rodas trilhando a linha faziam dessa complexidade um ninar coletivo. Eu em pé observava aquela invejável situação, já que a minha situação era efeito dominó. Eu me segurava ao ferro parte fixada no assoalho e a outra no teto. O trem chocalhava e abruptamente parava nas estações, os que estavam na frente viam de encontro uns aos outros até chegarem até nós que estávamos na parte de trás do vagão.

A grande minhoca de ferro deslizava em curvas e retas e a cada parada, uns poucos saiam e outros em maior quantidade entravam, fazendo com que nos comprimíssemos mais ainda.

Bom, já era praticamente a metade da viagem e eu não sei ao certo de onde vinha aquela voz, e percebi que se aproximava cada vez mais.

 Telmar! Telmar!

Alguém conseguira me achar naquele enlatado comprimido.

Olá! Camarada, quanto tempo? A voz ainda abafada por estreitados corpos suados e malcheirosos de um dia inteiro de trabalho árduo se aproximava.

Dei uma esquivada para trás com a cabeça e vi que a voz era de um amigo que há muito tempo não o via. Devia ter uns cinco anos que tínhamos perdido o contato.

— Fala Armando! Quanto tempo meu amigo! O que você anda fazendo? Mal dando para olhá-lo, já que não podíamos nem nos mexer.

Fomos até a Central do Brasil conversando. Ele ficou sabendo que eu estava procurando emprego para complementar minha renda e a partir daí trocamos telefones e fiquei de procurá-lo no dia seguinte.

Desci na Central do Brasil e fui a pé até minha residência que era bem próximo dali, enquanto Armando pegou o ônibus para o bairro da Glória.

No dia seguinte fui ao encontro dele. Juntos seguimos até o apartamento de Leila, sua namorada. Após alguns minutos de conversa, descobri que ela era técnica de futebol feminino e que uma de suas jogadoras tinha se contundido e ela estava desesperada, pois, precisava urgentemente de uma substituta.

A coincidência dessa história é que Armando tinha me encontrado ao acaso. Quando moleques, jogávamos futebol de salão e fiquei conhecido como “Telminho, o canhotinha de ouro”.

Armando e Leila me convenceram a substituir a menina que estava faltando na equipe de futebol. Podia parecer loucura, mas não, ou foi? A verdade que desde garoto, sempre fui apaixonado por futebol, e além da grana que era irrecusável, não consegui dominar meu instinto pela paixão e pelo desafio e no final daquela tarde já decidira me transformar em Telminha.

Uma semana antes do jogo, fiz depilação nas pernas, nos braços e no rosto. Devido a minha estatura alta e ao sutiã de enxerto por baixo do uniforme rosa, fiquei parecendo uma daquelas modelos fotográficas e de passarela. No cabelo, foi usado um aplique ruivo muito bem feito e no final da transformação, ao ver-me na imagem refletida no espelho, ninguém desconfiaria que Telminha não era uma mulher. Quer dizer: eu!

A história terminaria feliz se eu me desse por satisfeito com o pagamento pelo feito e tivesse ido embora depois do jogo, mas a diversão e o prazer da vitória de 4 a 0 não me deixaram ir, e fui comemorar com o resto da equipe num abastado churrasco com os adversários.

Depois de muitas cervejas e incansável lero-lero, alguns, caras começaram a se engraçar pelas meninas de ambas equipes, o que me incluía também, e a partir daí as coisas não deram mais certo. Quando descobriram que a ruiva gostosa não passava de um latagão, foi murro para cá, trampesco para lá. Foi vergonhosamente desmascarado o logro que dera a vitória para o nosso clube.

O desfecho dessa vergonhosa história foi parar na delegacia e depois da ocorrência registrada por ambas as partes, fomos socorridos e levados justamente para o hospital em que eu trabalhava. A cena seria cômica se não fosse tão trágica: eu, na maca com um dos falsos peitos na mão, fui motivo de chacota para meus colegas de profissão assim que entrei na sala de raio-x.

Armando estava totalmente quebrado e as meninas estavam com escoriações, incluindo Leila, a técnica do grupo.

E essa história é relembrada e contada para os novos profissionais e todos desde a direção do hospital a qualquer outro funcionário me conhece por “Telminha a canhotinha de ouro”.

O Poeta Enamorado!

 







Quando o amor vem

Não percebemos o cupido

E quem não gosta?

De ser amado e desejado

O amor acorda o poeta adormecido


E no manuscrito

O amor já foi dito

Ah! Estou com saudades

Mas preciso ir embora, agora

Contrair dívidas para meu coração


E agora sou o meu próprio analista

Preciso escrever e chorar esse amor

Numa folha de papel

A música é meu passaporte

Meu lápis companheiro de viagem


Meu coração é pista de aterrissagem

Que aguarda o teu breve pouso...

Ah! Se leres esses versos

São para ti um bilhete de viagem

De um poeta que reflete na imagem


O bardo do lado de cá

Que procura e vasculha do lado de lá

Na busca de sensibilizar o seu amor

Para que venha ao meu encontro

Pois, há muito te espera

Acróstico II

 













Apologia minha, relembrar do tempo


Hedonismo embalado ao vento

Ora! O que seria retomar o passado?

Ressonar na rede ao relento

Trocar o bom comportamento, pelo desatino

Acostar e pressentir o destino


Deu-me tudo ontem, e agora

O presente, o passado chora


Ver-te velho labutador

Entusiasmado pelos muitos anos

Lavrar à terra com tanto amor

Habilidade de suas mãos franzinas

Outrora conheci ainda menina


Portento era a figura do meu avô

Anjo entre nós, agora

Uberdade no plantio, no amor

Luzido de caráter e dignidade

Objetivo de sua vida, objeto de minha saudade

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Somos Um Só!

 







Diariamente penso no que estamos passando devido esse momento estranho e confuso. Onde quase toda família perdeu um ou mais entes para esse vírus “Covid 19”, que chegou do nada e saiu arrastando milhares de pessoas para seus túmulos. A sensação que eu tenho é que o Planeta Terra virou uma imensa bola de basquete desgovernada dançando no ar perante um enorme público que dorme o sono dos estúpidos e que a esbofeteia jogando-a de um lado para outro sem noção do perigo que a gigante poderia fazer ao cair e esmagar toda humanidade por descasos e por falta de zelo.

Enquanto alguns choram por perdas, outros se divertem por qualquer motivo e que faz da vida um ciclo dual, hoje bem, amanhã mal.

Estamos sem chão, sem norte, sem respostas, sem perspectivas e ainda assim a vida segue o seu fluxo. Conforme as águas dos rios que seguem seu curso natural,  os dias continuam amanhecendo na esperança de dias melhores.

Destarte, vamos todos caminhando juntos para a Pátria Espiritual que é o nosso lugar de origem. Embora, às vezes, esquecemos de ser o único um lugar que tememos é o lugar certo. E dentro dessa premissa acredito que todos nós nos encontraremos em algum momento novamente.

Somos um elo dessa corrente que se arrebentou por motivos que desconhecemos e ficamos perdidos sem nos reconhecermos como irmãos não de carne, porém espirituais. A cada elo que se encontra e se une surgi a esperança de chegarmos à Terra de boa aventurança. Para tanto precisamos respeitar o Planeta Terra, os animais, os vegetais, os minerais e cada ser com suas diferenças.

Somos a essência de um Criador Divino e juntos somos um só!