Créditos da Imagem: Hollywood Journal
- Pai! Pai! Conta uma história pra
mim, por favor. - Era um pedido pertinente de todas as noites da menina
Beatriz para seu pai, que incansavelmente lhe contava não contos de fadas já prontos, mas histórias que surgiam de imediato na sua mente.
- Só um minuto, Bia! Respondia
pacientemente, aquele encantador e contador de tramas.
A pequena Beatriz era filha única e ficara
órfã de mãe aos seus tenros dois anos de idade. Júlio César, seu
pai, a partir desse episódio, passou a fazer ambos os papéis para amada filha. Bia, como era carinhosamente chamada, completava exatos cinco anos em maio, mês em que ele ficara viúvo de Barbara.
Durante todo esse período, Júlio
César encarnara os papéis de dono de casa, babá, socorrista,
professor, pai e, como podia, o também de mãe.
Beatriz pedia quase sempre ao seu pai
para descrever sua falecida mãe. Indagava a cor de seus cabelos e
olhos, perguntava se ela era bonita e engraçada.
Júlio, disfarçando sua tristeza, descrevia as características de Bárbara, exagerando nos detalhes. Ele entendia que, apesar da menina ter somente dois anos de idade no fatídico dia da morte da mãe, a pequena criança tentava fixar a imagem do seu rosto em sua mente.
O pai acreditava que, possivelmente, essa era uma das formas que Beatriz tinha encontrado de fazer a recordação de sua mãe resistir aos propósitos do tempo, fazendo-a permanecer sempre em evidência na sua lembrança.
Certamente, já investigando sobre o esquecimento no seu íntimo,
ela - ainda que criança - indagava. Provavelmente, seu consciente cobrava para que o retrato de sua mãe ficasse delineado para sempre.
“ - O tempo às vezes é sábio e, também, cruel. Não sabemos porque ele funciona para cada um de nós
de forma diferente”. Pensava Júlio, toda vez que Bia questionava, incansavelmente, os traços de sua mãe.
Júlio César trabalhava como
maquinista. Sempre foi excelente condutor de locomotivas e um exímio
operador dessas máquinas. Seus horários de labuta coincidiam
propositalmente com o horário escolar integral de Beatriz. Quando
acontecia algum imprevisto de qualquer natureza que envolvessem os
dois, ele trocava de horário com Jacinto, um
outro colega de profissão e amigo pessoal.
Dessa forma, ia levando a vida após a morte de sua mulher. Adequando sua jornada como podia, priorizando sempre o bem estar da menina.
- Pai! Estou aguardando... - Beatriz gritara de seu
quarto, impacientemente.
- Já vou, filha! - respondeu, de forma inteligível, enquanto escovava os dentes.
Não demorou muito, Júlio
entrou no quarto de Bia, ajeitou o seu travesseiro, puxou a coberta
até a ponta do seu queixo e sentou na
beira da cama. Deu-lhe um fraterno beijo na testa e lhe perguntou:
- Que história quer
ouvir hoje, menininha?
- Qualquer uma, papai! - Respondeu a menina alegremente
- Mas vai ser um pequeno
conto, garota! Amanhã temos que acordar cedo, como sempre.
- Está bem!
Com felicidade, a menina se ajeitou na cama, pegou “Palito” - seu bonequinho de pano com três fiapos de linhas douradas na
cabeça -, colocou-o sob a coberta e aguardou ansiosamente pelas
narrativas de seu admirado pai.
Júlio se levantou da
beira da cama de Beatriz e foi até a poltrona que se encontrava ao lado. Ajeitou seu corpo cansado na cadeira de vime e
prosseguiu com seu mais novo devaneio:
- Era uma vez uma menina
e o sapo de olhos verdes! A menina, que era muito bonita e inteligente, possuía muitos talentos natos e um excelente gosto. Apreciava boas músicas e tinha como principal hobby a leitura. Passava horas e horas do seu dia lendo e adquirindo conhecimento e,por consequência
disso, a menina foi, pouco a pouco, construindo um enorme castelo de erudições.
Seu castelo feito de letras, páginas e sonhos ficou tão alto, mas tão alto, que ninguém conseguia chegar até ele.
A moça foi crescendo física e intelectualmente.Com seu conhecimento, percorreu o mundo e viajou para terras antes desconhecidas. Um certo dia, resolveu acampar
em um lugar chamado Apólogo. Um recanto muito atrativo para quem gosta
de apreciar a natureza e seus elementos.
Ao deambular numa das
suas tardes interrogativas, avistou um lago pequeno em forma de arco.
O que mais chamava sua atenção era a cor da água. Muito
transparente e com uma bela vista da comunhão de vários peixes
coloridos nadando numa sinfonia aquática.
E assim foram se passando
alguns meses quando num daqueles dias ensolarados se achegou até
margem do lago e viu sua beleza estampada no reflexo da água
límpida. E pensou com seus botões casados: “ por que sendo ela
uma moça bonita, jovem, inteligente e amável ainda não encontrara
o seu príncipe encantado?” Ficou por horas assim olhando para o
espelho d'água confiando em receber uma resposta que a convencesse.
E mansamente aquele espelho d”água não lhe dera nenhuma
resposta.
E assim prosseguiu a
vida.
Dois anos tinha-se
passado. Se dedicou mais ao trabalho. Às vezes saia para dá uma
corridinha para manter a forma. Outra hora ia em algum festival de
jazz que gostava muito. Em algumas temporadas recebia algumas amigas
e nem percebia o passar do tempo.
Quando chegou o verão
saía quase todas as tardes para dá um caminhada, e numa dessas não
percebeu que instintivamente andou até se deparar nas margem do
lago. Ficara ali mergulhada em pensamentos vagos. Até que de
repente emergiu um grande sapo de olhos verdes!
Beatriz olhou para o pai
e deu um acesso de riso. Uma compulsão de risadas que até Júlio
não se conteve. Ficaram ali os dois por minutos rindo.
_ Qual foi a graça,
Beatriz?
- Imaginei o sapo dando
um susto na menina e ela caindo dentro do lago.
- Dá próxima vez
pensarei em algo parecido, está bom?
- Pai, continua... Eu não
vou rir mais.
Júlio continuou com a
sua narrativa...
_ O sapo realmente dera
um grande susto naquela menina, porém ela não caíra dentro do
lago. O sapo gordo ficou encantado com a beleza e a inteligencia
dela.
Ele era um sapo sagaz.
Apesar de horrendo, assustador, muito galhofeiro. A menina passou
visitar o sapo, todas as tardes. Observava sua língua pegajosa e
musculosa lançada para bocanhar os insetos.
Ele a fazia rir quase o
tempo todo e ficavam horas ali de conversa na beira do lago. Ele
coaxando sobre sua vida naquele lago dominado por ele, ela
tagarelando sobre seus deslumbre da vida. O sapo de olhos verdes
saltava e jogava-lhe água no rosto como gotículas de orvalho.
Aquilo encantava aquela moça e assim foi se passando o tempo e ela
se apaixonou por aquele horrendo sapo.
Um dia a moça resolveu
procurar nos dicionários uma fada madrinha. Dessas com vara de
condão e tudo. Tinha esperança que aquele sapo de olhos verdes
viesse ser o seu lindo príncipe. Resolveu fazer uma viagem para os
livros de contos de fadas. Quiça, conseguisse uma emprestada, mas
todos a negaram a cedê-la.
Enquanto não obtinha
seu intento, ia visitá-lo no lago e ficava horas a admirá-lo. Então, um dia resolveu já que não podia o sapo virar um príncipe ela iria
virar um sapo. E só tinha uma maneira de se dar isso. Uma viagem
para a cidade da Fantasia. Uma cidade linda e encantadora. Todos que
já se hospedaram nela poderia testemunhar o seu fascínio. Tomou um
banho, colocou sua roupa nova, fez as malas e embarcou no primeiro
voo para povoação da Quimera.
Lá chegando avistou ao
longe o lago que pra ela já era conhecido. Se aproximou e quando
percebeu já estava mergulhada nele. Sua pele estava rugosa. Ela
tinha virado definitivamente um sapo. Agora com a visão de um
anfíbio observava as poças temporárias de água acumulada nos
ramos de algumas plantas. Era um sítio de criação e observava
agora bem de perto. A água que ela estava submersa era premente para
os ovos e girinos. E eles pertenciam ao sapo gordo de olhos verdes.
Pois eles eram a cara dele. Cara de um e focinho do outro!
Então já no mundo dos
sapos a moça estava mergulhada nas águas onde os girinos brincavam
entre si. Percebeu que estava sendo vigiada por dois grandes olhos
verdes. E aqueles olhos eram inconfundíveis. Aquele sapo vivia
naquele lago com a sua família.
Os girinos estavam em sua
volta, rodeando-a. Cantavam felizes por aquela visita aparentemente
familiar. A menina também de olhos verdes que agora era uma sapo ali
apavorada e na água junto deles não sabia o que fazer.
O par de olhos verdes
continuava a vigiar suas crias e aquele sapo estranho em seu lago lhe
parecia pouco afeito.
E os sapinhos em coro
falavam melodicamente para chamar atenção daquele sapo que não não
era sapo: “o sapo não lava o pé, não lava porque não quer, ele
mora na lagoa, não lava o pé por que não quer. E gritavam em coro:
que cheirinho de chulé!” Fazendo festas com o balançar de suas
caldas.
Aquilo era nojento,
pensou aquela moça! Ela começou a gritar:
_ Me tirem daqui! Ai que
nojo! Me tirem daqui! Gritava a moça de olhos verdes que virara um
sapo.
Aqueles girinos eram
filhos do sapo de olhos verdes.
- Me tirem daqui! Ai que
nojo!
Ela se debatia e gritava.
Júlio César entrou no
quarto da menina e tentou acalmá-la.
- Calma, Bia! O que houve, filha?
- Pai, o sapo de olhos
verdes!
- Calma, filha.
- Um sapo, pai! Um sapo de
olhos verdes! - Ela repetia, com os olhos assustados.
- Calma, Bia! Foi apenas um pesadelo. - O pai disse, tentando acalentar Beatriz.
A menina, agora mais calma, abraçou o pai
aliviada! Pegou o seu boneco “Palito” e o abraçou também.
Longe dos aterradores olhos verdes do sapo, os três - pai, filha e boneco, -adormeceram por aquele momento único e mágico.
(Luiza Lozada)