Clarice
e Bernardes, jovens noivos, estavam ansiosos pelo casamento que
aconteceria no início do próximo mês. Ela, uma jovem estudante de
medicina, aproveitava as férias da faculdade para organizar e
conferir os pequenos e últimos detalhes da cerimônia.
Ele,
por sua vez, dedicava-se com afinco ao trabalho, fazendo horas extras
sempre que possível para garantir os gastos com sua viagem de lua de
mel, que aconteceria em uma charmosa cidade do litoral paulista.
A
vida de ambos estava uma completa loucura, mesmo com quase tudo
pronto, pois os dois tinham cuidado de cada minúcia pessoalmente.
Claro que o ideal seria contratar uma dessas empresas de
cerimonialistas que pensam e preparam integralmente o casamento, mas
o que sobrava de amor entre os dois, faltava em dinheiro naquele
momento. Por esse motivo, eles cuidaram pessoalmente dos convites,
das roupas, do buffet, da contratação do salão e até da música,
já que Bernardes tinha um amigo contrabaixista que ofereceu tocar
com a sua banda na festa como presente, a única coisa que eles se
permitiram gastar um pouco mais foi com o fotógrafo e a filmagem
porque queriam garantir que os registros que capturaria a alma
daquele momento tão especial fossem impecáveis.
Nesse
período conturbado, os noivos mal se falavam por telefone. Enquanto
Bernardes gastava o tempo em seu trabalho, Clarice pediu a
ajuda da mãe e das duas irmãs caçulas e aproveitou para levar os
presentes que tinham ganhado dos convidados, parentes e amigos que
estavam na casa de sua mãe para a casa nova, que tinha ficado pronta
há poucos dias.
O
carro estava abarrotado de embrulhos. Eletrodomésticos, utensílios
de cozinha e muitas outras caixas que ainda não tivera tempo de
abrir. Entraram no carro e partiram para o seu futuro lar. O
percurso, de vinte minutos, distanciava-se a apenas seis quarteirões
da casa de seus pais. Enquanto dirigia, observava os lindos Ipês
amarelos que guarneciam cada rua em seu trajeto.
Ao
chegarem no condomínio onde iria residir, o porteiro se dirigiu a
jovem e entregou-lhe uma pequena caixa embrulhada com papel de seda
dourado e decorada com um belo laçarote vermelho, daqueles que
ficamos enamorados por tamanha destreza de quem o fez. A caixa era
tão leve que não despertou nenhuma curiosidade na bela noiva.
Estacionou
o carro em frente a sua casa e adentraram a sala. Clarice colocou a
caixa dourada no aparador junto ao vaso de crisântemo rosa e seguiu
o corredor adentro. Ficou horas ajeitando as coisas e guardando os
presentes, quando sua mãe chamou atenção para que abrisse a caixa
dourada.
Sentaram-se
à mesa da sala de jantar e Clarice pegou o pequenino envelope preso
à caixa o qual dizia:
“Minha
linda neta, espero que gostem do presente surpresa! Com amor, Vô
Aberlado.”.
Rasgou
o papel açodada para saber o que continha naquela caixa misteriosa
que de tão leve parecia uma pluma e, ao abrir a caixa, ficou
perplexa com o que continha nela. Duas passagens aéreas de ida e
volta. Boquiaberta, Clarice leu em voz alta para onde aquelas
passagens os levariam “República Theca”. Ela chorou de emoção.
Sequer tinha saído do Brasil e o avô lhe dera um presente daqueles.
Por um momento, se preocupou em como conseguiria arrumar dinheiro
para os demais gastos que teria pela frente com a viagem, mas a
inquietação não durou muito, afinal, a caixa que era peso-pena,
guarnecia em seu interior algo de valor inestimável. Ainda dentro
dela, dobrados em seu fundo, estavam os papéis com as reservas dos
hotéis, dos restaurantes, ingressos e um mapa com os principais
pontos turísticos. Tudo absolutamente pago.
O
dia do casamento chegou e após uma cerimônia linda e impecável, os
noivos saíram do local para trocar de roupas, pegar suas malas e
rumarem para o aeroporto de Guarulhos. Depois de uma viagem
cheia de expectativas e ansiedade que durou longas horas, já
estavam hospedados e prontos para conhecer cada detalhe da cidade de
Ostrava, em Morávia.
Os
recém casados começaram sua aventura visitando os principais museus
da cidade, e com audio-guides escutavam atentos a explicação sobre
o museu Landek
Park,
que antes era usado como um antiga mina de carvão. Tiraram fotos das
locomotivas, dos trenzinhos de carga e dos vários acessórios
antigos desativados.
Durante
o tempo em que andavam pelas ruas, observavam a construção
arquitetônica peculiar da cidade, a arquitetura industrial margeada
por torres de mineração, usinas e alto fornos dava àquele cenário
um aspecto steampunk.
Enquanto pesquisavam por mais passeios, descobriram que naquela mesma
noite aconteceria o Colours
of Ostrava,
um dos mais importantes festivais de música internacional da Europa.
O evento, que aconteceria no antigo polígono industrial de
Dolní
Vítkovice,
recebia milhares de pessoas dos quatro cantos do mundo. Foi uma das
experiências mais incríveis que os dois já puderam experienciar.
No
dia seguinte se prepararam para novas aventuras naquela cidade
aconchegante. Ficaram encantados com o The
World of Miniatures.
Um mundo de bolso em um jardim de Ostrava, pequenas aldeias entre
jardins com exposições de flores completando as miniaturas.
Lindas margaridas e dálias que enchiam de contentamento o coração
de Clarice, apaixonada por flores. Prosseguiram com o passeio e
caminharam meia hora para apreciar ao redor da exposição de
água com um cruzeiro aparentemente ancorado no mar, enquanto as
mangueiras e fontes de fluxo complementava a demonstração.
A
cada dia era uma novidade. O passeio a pé pelas ruas, a visita ao o
antigo Café
Habsburg que
passou a abrigar a lindíssima livraria Academia,
os restaurantes, as praças. Tudo foi devidamente registrados em
fotos e filmagens, cada detalhe dos lugares, as comidas, as bebidas.
Queriam catalogar todos os instantes daquela viagem extraordinária,
como se quisessem reter nos retratos a felicidade daqueles momentos.
Na
última noite foram jantar para se despedirem do local. O penúltimo
jantar naquela terra maravilhosa e acolhedora. Penúltimo porque
fizeram juras que iriam retornar àquele lugar que tanto amaram
conhecer. Pediram um prato típico tcheco muito apreciado que,
segundo os nativos era comparado à feijoada brasileira porque toda
família tcheca tinha a sua própria receita e afirmavam
categoricamente que preparavam a melhor svicková
que
iriam experimentar. Ambos ficaram satisfeito com aquela comida
deliciosa que, mesmo não sendo da terra natal, tinha um gosto
reconfortante de lar. No final, brindaram com uma cerveja local.
Semanas
depois do regresso ao Brasil, num dia qualquer, Clarice e
Bernardes, nostálgicos, combinaram que fariam novas viagens para
República Tcheca, pois queriam conhecer mais cidades daquele
deslumbrante país e assim seguiram suas vidas com seus sonhos e
projetos.
Os
dias passaram e eles completaram um ano de casados. Clarice preparou
um jantar a velas para surpreender o marido com uma receita de
svicková
que
conseguiu achar na internet.
Os
dois jantaram e, antes de brindar, Bernardes viu na penumbra da sala,
duas passagens aéreas naquela mesma caixa dourada que Clarice fez de
talismã e que continuava no mesmo lugar, refletindo uma luz áurea e
intermitente que exalava ares de bem-aventurança.