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sábado, 22 de agosto de 2020

Libertos!

 



Clarice abriu a janela de seu quarto e do terceiro andar observava pessoas com máscaras multicoloridas. Caminhavam tranquilamente pelas ruas arborizadas. O sol refletia nas vidraças dos prédios vizinhos luzes coloridas.

O cheiro do ar que inspirava tinha gosto bom. Refletiu… tudo modificado por conta do vírus que espedaçou vidas. O futuro fora acelerado por conta da massa solitária.

Doravante, videoconferências, ensino à distância, trabalhos se tornaram remotos. O isolamento valorizou profissionais desapercebidos. Clarice voltou-se para dentro e observou sua máquina de escrever que se tornara um objeto de decoração, porém naquele dia ela resolveu ruidar as teclas fazendo delas o seu próprio grito de libertação: “Fim da pandemia”.

A varanda

 


Ele estava na varanda a contemplar o nada. Ao redor muitas bananeiras, mangueiras,

jambeiros e uma afinidade de verdes mesclados. O farfalhar delas o hipnotizava, lembrava o

Jardim do Éden.

Um palco de seres vivos, contracenando com ele. Insetos e pássaros, os ciciados e os

chalreados davam a sonoridade àquela cena. E ele perdido em pensamentos estáticos, com 

olhar vago buscava no seu âmago a bem-aventurança.

As bromélias davam um tom sutil com suas cores vermelhas, rosas e amarelas. O céu azul-

claro se desnudava aos poucos e as nuvens sopradas pelo carinhoso vento ia conduzindo-as

numa dança de sedução. E ele as perseguia, até perdê-las de vistas. As horas voavam

unidamente com aquelas aves. A natureza despojava-se e ele esquecia por instante a 

tragédia que acometia milhares de pessoas pelo vírus.

Anestesiava-se no seu silêncio e no mantra daquela essência.

Naquele momento duvidoso a apantropia lhe trazia Deus.

Submerso em devaneios não percebeu o calor do sol que o circundava com seus raios

aquecendo a alma, os poros.

Retirou-se com o calor e foi cuidar da vida.


Luiza Lozada

Aos pés da mesa !






Lembro-me nitidamente da mesa grande onde fazíamos as refeições. Sentado à cabeceira, meu avô

governava o passadio, enquanto minha avó acomodava-se na outra extremidade. Ao redor deles, meus

tios e alguns primos aboletavam-se nos demais lugares. Eu e minha irmã caçula sempre comíamos em pé,

o prato quase encostado em nosso rosto, tamanha a nossa pequenez. Mesmo vagando cadeiras, sempre

ficávamos de pé.

Durante a meninice, nunca compreendi muito bem o motivo da punição despropositada, mas hoje

entendo porque minha avó nos castigava. Malograda com a vida árdua que levava, usava-nos de saco de

pancada.

Apesar de tudo, lembro com carinho das deliciosas refeições que ela, com suas mãos alvas e

miúdas, preparava. O angu salgado ao alho e óleo era disputado a tapas pelas criançada. Competíamos

para ver quem conseguiria raspar a panela que sempre ficava glaceada com uma camada de alho tostado,

que impregnava o ar. A boca salivava e o estômago aguardava ansioso aquela papa amarela e saborosa

chegar-se a ele.

Meu avô franzino semeava o terreno da casa com variadas plantações. Comíamos legumes e

verduras frescos e naturais. Os canteiros pareciam verdadeiras obras de artes. Todo tipo de hortaliças,

batatas, aipim, milho, tomates cingiam a terra com suas múltiplas cores.

Hoje, com a idade se aproximando a da minha avó, relembro o meu fascínio pelo café da tarde.

Um bule imenso à mesa soprando o cheirinho delicioso do café pelo seu bico, um tabuleiro de torradas

com pães dormidos.

Ao relembrar tão nitidamente essas reminiscências da minha memória, me vejo pequenina ainda,

aguardando no batente da porta da cozinha, inebriada pelo aroma inconfundível de café aguado de minha

avó e eu pronta para ficar aos pés da mesa.

Aos pés da mesa!

 




Aos pés da mesa!


Magrelas, despovoadas, com cara de meninos. Cabelos curtos e nucas raspadas. Pequeninos

soldados de saias. Daquele modo elas ficavam em frente à mesa de refeição. Sempre de pé. Ainda que

houvessem cadeiras vagas. Cenhos quase nos pratos, pratos quase nos cenhos. O calor das travessas

transpiravam temperos e seus olhos famintos comiam com suas bocas.

Poucos dentes, frinchas estrambólicas. De vez em quando as dobradiças finas e ossudas pendiam

pra frente e seus cotovelos chuchavam o tampo de fórmica da mesa.

Na cabeceira, o velho com barba rala levava à boca a colher de sopa libando o líquido quente. Na

outra extremidade, a prava, a que todos temiam. Ao redor deles, a parentada aboletava-se nos demais

lugares.


Aquela mesa ornamentava quatro refeições ao dia, das quais todos se deliciavam. O lanche da

tarde era o predileto da meninada. Um bule imenso sobre a mesa soprava um cheirinho delicioso do café

pelo seu bico, um tabuleiro de torradas com pães dormidos.


Inocentes cunhantã, nunca compreenderam o porquê os avoengos se tornam bruxos tangíveis


como os dos contos de fadas.

Durante suas meninices, nunca compreenderam muito bem o motivo da punição despropositada

de sua avó. Malograda com a vida árdua que levava, as usava feito de sacos de pancadas.


Guris não sentem rancor, sentem fome. E ditinho esqueciam rápido. Aquela mesma mão que

fazia arder seus couros com suas chinelas de pele, tinha a destreza de fazer deliciosas refeições. Mãos

alvas e miúdas seduziam estômagos. Bocas escumavam salivas.


No almoço de domingo, o angu feito no alho e óleo servidos nos pratos esmaltados e

superquentes deixava todos faceiros. Tudo e todos pela casquinha de alho tostado e glaceado no fundo da

panela.

Um bando de banguelas com suas colheres disputando aos tapas uma lasquinha.


O ancião franzino semeava sua própria lavoura. No arado, todo tipo de hortaliças e legumes,


frescos e naturais. Cingia a terra preta com múltiplas cores. Hoje, dorme sob ela.

As pitombas reminiscentes já não ardem mais, apenas reverberam num presente incorpóreo. No

batente da porta da cozinha, apoiada na bengala, um daqueles velhos soldados de saias, observa as

magrelas aos pés da mesa, o cheiro de café aguado invadindo todo aquele cenário... agora vazio.

A caixa dourada



 





Clarice e Bernardes, jovens noivos, estavam ansiosos pelo casamento que aconteceria no início do próximo mês. Ela, uma jovem estudante de medicina, aproveitava as férias da faculdade para organizar e conferir os pequenos e últimos detalhes da cerimônia.

Ele, por sua vez, dedicava-se com afinco ao trabalho, fazendo horas extras sempre que possível para garantir os gastos com sua viagem de lua de mel, que aconteceria em uma charmosa cidade do litoral paulista.

A vida de ambos estava uma completa loucura, mesmo com quase tudo pronto, pois os dois tinham cuidado de cada minúcia pessoalmente. Claro que o ideal seria contratar uma dessas empresas de cerimonialistas que pensam e preparam integralmente o casamento, mas o que sobrava de amor entre os dois, faltava em dinheiro naquele momento. Por esse motivo, eles cuidaram pessoalmente dos convites, das roupas, do buffet, da contratação do salão e até da música, já que Bernardes tinha um amigo contrabaixista que ofereceu tocar com a sua banda na festa como presente, a única coisa que eles se permitiram gastar um pouco mais foi com o fotógrafo e a filmagem porque queriam garantir que os registros que capturaria a alma daquele momento tão especial fossem impecáveis.

Nesse período conturbado, os noivos mal se falavam por telefone. Enquanto Bernardes gastava  o tempo em seu trabalho, Clarice pediu a ajuda da mãe e das duas irmãs caçulas e aproveitou para levar os presentes que tinham ganhado dos convidados, parentes e amigos que estavam na casa de sua mãe para a casa nova, que tinha ficado pronta há poucos dias. 

O carro estava abarrotado de embrulhos. Eletrodomésticos, utensílios de cozinha e muitas outras caixas que ainda não tivera tempo de abrir. Entraram no carro e partiram para o seu futuro lar. O percurso, de vinte minutos, distanciava-se a apenas seis quarteirões da casa de seus pais. Enquanto dirigia, observava os lindos Ipês amarelos que guarneciam cada rua em seu  trajeto. 

Ao chegarem no condomínio onde iria residir, o porteiro se dirigiu a jovem e entregou-lhe uma pequena caixa embrulhada com papel de seda dourado e decorada com um belo laçarote vermelho, daqueles que ficamos enamorados por tamanha destreza de quem o fez. A caixa era tão leve que não despertou nenhuma curiosidade na bela noiva.

Estacionou o carro em frente a sua casa e adentraram a sala. Clarice colocou a caixa dourada no aparador junto ao vaso de crisântemo rosa e seguiu o corredor adentro. Ficou horas ajeitando as coisas e guardando os presentes, quando sua mãe chamou atenção para que abrisse a caixa dourada.

Sentaram-se à mesa da sala de jantar e Clarice pegou o pequenino envelope preso à caixa o qual dizia:Minha linda neta, espero que gostem do presente surpresa! Com amor, Vô Aberlado.”.

Rasgou o papel açodada para saber o que continha naquela caixa misteriosa que de tão leve parecia uma pluma e, ao abrir a caixa, ficou perplexa com o que continha nela. Duas passagens aéreas de ida e volta. Boquiaberta, Clarice leu em voz alta para onde aquelas passagens os levariam “República Theca”. Ela chorou de emoção. Sequer tinha saído do Brasil e o avô lhe dera um presente daqueles. Por um momento, se preocupou em como conseguiria arrumar dinheiro para os demais gastos que teria pela frente com a viagem, mas a inquietação não durou muito, afinal, a caixa que era peso-pena, guarnecia em seu interior algo de valor inestimável. Ainda dentro dela, dobrados em seu fundo, estavam os papéis com as reservas dos hotéis, dos restaurantes, ingressos e um mapa com os principais pontos turísticos. Tudo absolutamente pago. 

O dia do casamento chegou e após uma cerimônia linda e impecável, os noivos saíram do local para trocar de roupas, pegar suas malas e rumarem para o  aeroporto de Guarulhos. Depois de uma viagem cheia de expectativas e ansiedade que durou longas horas,  já estavam hospedados e prontos para conhecer cada detalhe da cidade de Ostrava, em Morávia.

Os recém casados começaram sua aventura visitando os principais museus da cidade, e com audio-guides escutavam atentos a explicação sobre o museu Landek Park, que antes era usado como um antiga mina de carvão. Tiraram fotos das locomotivas, dos trenzinhos de carga e dos vários acessórios antigos desativados. 

Durante o tempo em que andavam pelas ruas, observavam a construção arquitetônica peculiar da cidade, a arquitetura industrial margeada por torres de mineração, usinas e alto fornos dava àquele cenário um aspecto steampunk. Enquanto pesquisavam por mais passeios, descobriram que naquela mesma noite aconteceria o Colours of Ostrava, um dos mais importantes festivais de música internacional da Europa. O evento, que  aconteceria no antigo polígono industrial de Dolní Vítkovice, recebia milhares de pessoas dos quatro cantos do mundo. Foi uma das experiências mais incríveis que os dois já puderam experienciar. 

No dia seguinte se prepararam  para novas aventuras naquela cidade aconchegante. Ficaram encantados com o The World of Miniatures. Um mundo de bolso em um jardim de Ostrava, pequenas aldeias entre jardins com exposições de flores completando  as miniaturas. Lindas margaridas e dálias que enchiam de contentamento o coração de Clarice, apaixonada por flores. Prosseguiram com o passeio e caminharam meia hora  para apreciar ao redor da exposição de água com um cruzeiro aparentemente ancorado no mar, enquanto as mangueiras e fontes de fluxo complementava a demonstração. 

A cada dia era uma novidade. O passeio a pé pelas ruas, a visita ao o antigo Café Habsburg que passou a abrigar a lindíssima livraria Academia, os restaurantes, as praças. Tudo foi devidamente registrados em fotos e filmagens, cada detalhe dos lugares, as comidas, as bebidas. Queriam catalogar todos os instantes daquela viagem extraordinária, como se quisessem reter nos retratos a felicidade daqueles momentos.

Na última noite foram jantar para se despedirem do local. O penúltimo jantar naquela terra maravilhosa e acolhedora. Penúltimo porque fizeram juras que iriam retornar àquele lugar que tanto amaram conhecer. Pediram um prato típico tcheco muito apreciado que, segundo os nativos era comparado à feijoada brasileira porque toda família tcheca tinha a sua própria receita e afirmavam categoricamente que preparavam a melhor svicková que iriam experimentar. Ambos ficaram satisfeito com aquela comida deliciosa que, mesmo não sendo da terra natal, tinha um gosto reconfortante de lar. No final, brindaram com uma cerveja local.

Semanas depois do regresso  ao Brasil, num dia qualquer, Clarice e Bernardes, nostálgicos, combinaram que fariam novas viagens para República Tcheca, pois queriam conhecer mais cidades daquele deslumbrante país e assim seguiram suas vidas com seus sonhos e projetos.

Os dias passaram e eles completaram um ano de casados. Clarice preparou um jantar a velas para surpreender o marido com uma receita de svicková que conseguiu achar na internet. Os dois jantaram e, antes de brindar, Bernardes viu na penumbra da sala, duas passagens aéreas naquela mesma caixa dourada que Clarice fez de talismã e que continuava no mesmo lugar, refletindo uma luz áurea e intermitente que exalava ares de bem-aventurança. 







O Poço

 



Cresci bebendo água de poço. A mesma água que também nos abraçava com seus braços gelados. No verão era gostoso, no inverno nem tanto. Hoje me lembrei dele ao ver sua boca calada, com seus lábios quase imperceptíveis, mergulhados na terra preta e com o seu rosto coberto de sarças verdes que foram arrancadas a enxada. A lâmina enferrujada cortava e expurgava as raízes das ervas daninhas que ali estavam, unindo-se as lembranças que vieram a tona com o que restou dele. Não sei bem, talvez oito ou treze manilhas que se uniam para fazer aquele corpo de concreto que atulhava água salobre e que às vezes defluía por sua goela afora. Agora soterrado por concretos.

Lembrei de minha infância e também de minha amada irmã, porque brincávamos em volta dele. A parte não submersa, sua altura chegava um pouco mais que nossas cinturas raquíticas. Detrás tinha uma vasta plantação de bambu que o adornava, lhe dando um charme campestre. À terra preta que hoje está variegada com restos de areia e concretos, era uma terra fértil que alimentava belos canteiros de hortaliças e verduras, regados pelas manhãs antes do sol aquecê-los e ao entardecer quando já estavam quase frios. Uma rotina que inebriava nossas tardes de verão com o cheiro da terra molhada. Ao redor do poço ficavam poças de água que escapava da caçamba que descia e subia freneticamente, o balde resistiu por muito tempo, porém era visível o amarfanhado no alumínio. Esquecíamos da vida na cava cheio de água com girinos de rãs acreditando serem alevinos, e de pés nus enterrados na lama enchíamos a lata com os girinos e depois os devolvia para onde tínhamos tirado.

Tínhamos muitas manhãs entretida com a natureza. Observávamos as libélulas pairadas no ar e ficávamos fascinadas quando elas fugiam de nossas traquinagens. Quando não tinha nenhum adulto por perto, debruçávamos no peitoral do poço para escutarmos nossas vozes ecoando no âmago de suas entranhas rígidas, quando ficava muito vazio. O retorno de nossas vozes nos fascinava e por ingenuidade não percebíamos o risco que corríamos se porventura ele quisesse nos engolir. Observávamos os grandes pares de olhos submersos na água. Podia ser de rã, provavelmente era, entretanto, não sabíamos distinguir naquela época. Os três pares de olhos fitavam-se e por algumas vezes ficávamos atemorizadas com aqueles olhos esbugalhados nos observando também. E assim foram muitos momentos regozijes com essa boca de concreto, que hoje está soterrada e muda.

Muitas vozes que conheci também já se silenciaram, obedecendo um tempo que eu tento compreender, nesse cenário que retoco e recobro momentos entorpecidos.

Assim como a boca do poço ecoou nossas vozes de meninas, no perpassar de minha vida, ouvi palavras duras, ternas, explicativas, atenciosas, lamurientas e tantas outras, hoje estão emudecidas.

Doravante, pego uma cadeira, assento ela e eu naquela boca soterrada. Fecho os olhos e me esqueço no silêncio, busco afincadamente ouvir e lembrar os sons e ecos daquelas vozes que fizeram parte do meu cenário de existência. Consigo ver os seus rostos translúcidos, quase esmaecidos, alguns ainda jovens, e outros bem envelhecidos, entretanto, suas vozes silenciadas, suas bocas fechadas, igualmente ao poço, todas soterradas, dimanando minhas lembranças.

O sol vai se pondo e a brisa morna me aquece em lembranças, ouço ao longe as gargalhadas e o alarido daquelas duas meninas que não se auscultam mais…





Luiza Lozada


07/07/2020