Jacober
era um homem jovem. Trinta anos desfrutando de uma vida boêmia, idas
e vindas em festas, bacanais, suingue. Não tinha nenhum apego,
adorava liberdade, libertinagem que a vida lhe proporcionava.
Lia
e relia o telegrama, irritado amassou-o e jogou-o no canto da
cabeceira da cama. Não teve tempo de arrumar sua bagagem.
Restava-lhe apenas alguns minutos, e atordoado pelo inesperado,
estava em choque. Sentou-se a beira da cama, tateou alguns
objetos. Pegou a mala, colocou algumas peças de roupa, pegou um
estojo, abriu e deu uma leve conferida. Um pente, um jogo de
barbeador, desodorante e uma caixa de cotonetes quase vazia. Levantou
e foi até a estante, escolheu um livro. “Talvez pudesse ler na
viagem!” pensou. Sentou-se na cama novamente. Uma aflição
atormentou-lhe por instantes. Estava sem chão. Talvez não devesse
pensar nisso agora. Inclinou seu tórax na cama e ficou olhando para
o brilho da lâmpada, observando os pontos pequeninos de sujeiras no
seu interior. Um turbilhão de pensamentos conexos e desconexos. Uma
confusão mental. De repente a luz que vinha da lâmpada foi se
distanciando, as pálpebras ficaram pesadas e tudo em sua volta
ofuscou.
Jacober
puxava a mala com certa dificuldade. Estava muito pesada. Tentou
memorizar o que colocara na mala para justificar o pesadume. As
rodinhas da mala fazia o rolamento com muita dificuldade devido
a opressão. Arrastou-a praticamente até observar a fila, estava
grande. Duas quadras. Para a sorte de todos que ali estavam, um
frescor no ar, abrandava o calor. O vento soprava um cheiro perfumado
que Jacober tentou adivinhar, não conseguiu. Perdera a noção de
tempo. Olhou para o seu pulso e ficou aborrecido consigo por ter
esquecido o relógio. A fila andara um pouco e alcançara uma grande
plataforma. Uma estação de trem moderna, da qual nunca vira nem
revista estrangeira.
“O
próximo por favor!” Anunciara
um dos atendentes.
Jacober
se aproximou tímido e temeroso.
“Coloque
a mala sobre o balcão e abra por favor.” Ordenara o atendente,
fixando os olhos na ficha que estava em uma de suas mãos.
“Sim
senhor!” Respondeu o rapaz sem contestar. Puxou o fecho-ecler,
alguns dentes impedia o deslizamento do feixe. Depois de várias
tentativas, a mala de couro de cor marrom, gasto pelo tempo,
desnudara o seu conteúdo.
O
atendente olhou para o interior da mala e seu semblante foi de
serenidade, já estava acostumado com as bizarrices que via nelas. Ao
contrário de Jacober, seu olhar fixo para dentro da mala era de
perplexidade.
O
atendente ia ticando a lista conforme o que encontrava dentro da
mala.
“Senhor
Jacober sua mala está com excesso de peso. Aqui todos são ordenados
para os vagões conforme a pesagem da bagagem. Quanto mais peso, mais
vagões adiante. O que posso fazer nesse momento para ajudá-lo, é
tirar alguma coisa da mala,
para amenizar,
se tiver de acordo.” Fixou nos olhos do rapaz e aguardou sua
resposta.
Olhando
para dentro de sua mala, atônito, o rapaz concordou.
O
atendente tirou um envelope, riscou um item da lista e disse:
“Feche
sua mala e prossiga para o final de todos os vagões, se tiver sorte
embarcara no vagão de cargueiros.”
Jacober
sem entender nada, fechou a mala e com muita dificuldade desceu-a
de cima do balcão e prosseguiu para o final da estação. Ele nem
conseguia ver com nitidez o último vagão, tamanha era sua lonjura.
Arrastava a mala que estava cansada tanto quanto ele. O suor lhe
pingava pelo rosto e um gosto salgado era engolido. Por fim chegou ao
seu destino. Ali também tinha uma fila. Sentou em cima da mala para
descansar um pouco e aguardar sua vez de ser chamado.
“O
próximo!”
Gritou a decrépita do guichê treze.
Jacober
cansado encostou seu umbigo no guichê e colocou a mala sobre o
balcão com muita dificuldade. A mulher pediu-lhe que abrisse a mala
e assim ele o fez. Ela passou os olhos no seu interior e deu um leve
sorriso para o rapaz.
“Meu
caro como se previa, você também não vai nesse vagão. Todavia,
vou ajudar você.” E em seguida tirou um outro envelope de sua
mala, sem pedir-lhe autorização e mandou que prosseguisse em linha
reta a
estação.
Jacober
incrédulo desceu a mala que continuava insuportavelmente pesada. Deu
dois passos a frente e voltou para aquela senhora que tinha um rosto
familiar.
“Posso
lhe fazer uma pergunta?” Demonstrando traços de amargura em seu
rosto.
“Sim,
rapaz!”
Respondendo
a senhora e aguardando
o questionamento.
“Foram
tirados dois envelopes da minha mala…
E o
que contém neles?
Eu
me
lembro…não
coloquei quase nada na mala para justificar esse peso.
A senhora poderia me explicar?” Perguntou intrigado.
“Sim!
O
primeiro envelope eu pedi que tirassem. Nele está o registro de
minha queda em frente a calçada de sua casa. Eu pisei no cocô do
seu cachorro e cai. Quebrei o fêmur. Fiquei internada por longos
meses e morri de infecção no hospital. Velha, imunidade baixa,
enfim…”
Respondeu sem esboçar nenhum rancor.
“Meu
Deus! Dona Ambrosina! Sim eu me lembro disso” No seu
rosto
ficou estampado a vergonha de ter lembrado daquele fato.
“Isso
mesmo, rapaz! Você teve acessos de risos. Não me socorreu. Por um
bom tempo levei isso no meu coração. Mas, não tenho mais essa
mágoa.” Olhou para o rapaz com compaixão.
Jacober
cabisbaixo continuou a ouvi-la.
“O
segundo envelope registrou a morte do seu cão. Você lembra? Você
deixou o Picolé amarrado num toco de ferro fincado no chão
no seu quintal,
sem água,
num sol escaldante. O bicho literalmente derreteu. Você o colocou de
castigo por ter feito cocô na calçada.”
Jacober
abaixou a cabeça envergonhado. Tentando colocar seus pensamentos em
ordem… “O que teria mais de horrível naquela maldita mala?
Não conseguia recordar de nada.” Em seguida agradeceu a senhora e
partiu aviltado.
Seguiu
toda a linha da estação. Não tinha mais trens e nenhum vagão de
carga aguardando. Estava muito cansado, exaurido, suas pernas estavam
doídas e subitamente não conseguia ver mais o final da fila. Entrou
em pânico, seu coração disparou e tudo escureceu. Ele estava
mergulhado na própria escuridão.
“Um,
dois, três! Desfibrilador!”





