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terça-feira, 21 de novembro de 2017

O Viajante!



Jacober era um homem jovem. Trinta anos desfrutando de uma vida boêmia, idas e vindas em festas, bacanais, suingue. Não tinha nenhum apego, adorava liberdade, libertinagem que a vida lhe proporcionava.
Lia e relia o telegrama, irritado amassou-o e jogou-o no canto da cabeceira da cama. Não teve tempo de arrumar sua bagagem. Restava-lhe apenas alguns minutos, e atordoado pelo inesperado, estava em choque. Sentou-se a beira da cama, tateou alguns objetos. Pegou a mala, colocou algumas peças de roupa, pegou um estojo, abriu e deu uma leve conferida. Um pente, um jogo de barbeador, desodorante e uma caixa de cotonetes quase vazia. Levantou e foi até a estante, escolheu um livro. “Talvez pudesse ler na viagem!” pensou. Sentou-se na cama novamente. Uma aflição atormentou-lhe por instantes. Estava sem chão. Talvez não devesse pensar nisso agora. Inclinou seu tórax na cama e ficou olhando para o brilho da lâmpada, observando os pontos pequeninos de sujeiras no seu interior. Um turbilhão de pensamentos conexos e desconexos. Uma confusão mental. De repente a luz que vinha da lâmpada foi se distanciando, as pálpebras ficaram pesadas e tudo em sua volta ofuscou.
Jacober puxava a mala com certa dificuldade. Estava muito pesada. Tentou memorizar o que colocara na mala para justificar o pesadume. As rodinhas da mala fazia o rolamento com muita dificuldade devido a opressão. Arrastou-a praticamente até observar a fila, estava grande. Duas quadras. Para a sorte de todos que ali estavam, um frescor no ar, abrandava o calor. O vento soprava um cheiro perfumado que Jacober tentou adivinhar, não conseguiu. Perdera a noção de tempo. Olhou para o seu pulso e ficou aborrecido consigo por ter esquecido o relógio. A fila andara um pouco e alcançara uma grande plataforma. Uma estação de trem moderna, da qual nunca vira nem revista estrangeira.
O próximo por favor!” Anunciara um dos atendentes.
Jacober se aproximou tímido e temeroso.
Coloque a mala sobre o balcão e abra por favor.” Ordenara o atendente, fixando os olhos na ficha que estava em uma de suas mãos.
Sim senhor!” Respondeu o rapaz sem contestar. Puxou o fecho-ecler, alguns dentes impedia o deslizamento do feixe. Depois de várias tentativas, a mala de couro de cor marrom, gasto pelo tempo, desnudara o seu conteúdo.
O atendente olhou para o interior da mala e seu semblante foi de serenidade, já estava acostumado com as bizarrices que via nelas. Ao contrário de Jacober, seu olhar fixo para dentro da mala era de perplexidade.
O atendente ia ticando a lista conforme o que encontrava dentro da mala.
Senhor Jacober sua mala está com excesso de peso. Aqui todos são ordenados para os vagões conforme a pesagem da bagagem. Quanto mais peso, mais vagões adiante. O que posso fazer nesse momento para ajudá-lo, é tirar alguma coisa da mala, para amenizar, se tiver de acordo.” Fixou nos olhos do rapaz e aguardou sua resposta.
Olhando para dentro de sua mala, atônito, o rapaz concordou.
O atendente tirou um envelope, riscou um item da lista e disse:
Feche sua mala e prossiga para o final de todos os vagões, se tiver sorte embarcara no vagão de cargueiros.”
Jacober sem entender nada, fechou a mala e com muita dificuldade desceu-a de cima do balcão e prosseguiu para o final da estação. Ele nem conseguia ver com nitidez o último vagão, tamanha era sua lonjura. Arrastava a mala que estava cansada tanto quanto ele. O suor lhe pingava pelo rosto e um gosto salgado era engolido. Por fim chegou ao seu destino. Ali também tinha uma fila. Sentou em cima da mala para descansar um pouco e aguardar sua vez de ser chamado.
O próximo!” Gritou a decrépita do guichê treze.
Jacober cansado encostou seu umbigo no guichê e colocou a mala sobre o balcão com muita dificuldade. A mulher pediu-lhe que abrisse a mala e assim ele o fez. Ela passou os olhos no seu interior e deu um leve sorriso para o rapaz.
Meu caro como se previa, você também não vai nesse vagão. Todavia, vou ajudar você.” E em seguida tirou um outro envelope de sua mala, sem pedir-lhe autorização e mandou que prosseguisse em linha reta a estação.
Jacober incrédulo desceu a mala que continuava insuportavelmente pesada. Deu dois passos a frente e voltou para aquela senhora que tinha um rosto familiar.
Posso lhe fazer uma pergunta?” Demonstrando traços de amargura em seu rosto.
Sim, rapaz!” Respondendo a senhora e aguardando o questionamento.
Foram tirados dois envelopes da minha mala… E o que contém neles? Eu me lembro…não coloquei quase nada na mala para justificar esse peso. A senhora poderia me explicar?” Perguntou intrigado.
Sim! O primeiro envelope eu pedi que tirassem. Nele está o registro de minha queda em frente a calçada de sua casa. Eu pisei no cocô do seu cachorro e cai. Quebrei o fêmur. Fiquei internada por longos meses e morri de infecção no hospital. Velha, imunidade baixa, enfim” Respondeu sem esboçar nenhum rancor.
Meu Deus! Dona Ambrosina! Sim eu me lembro disso” No seu rosto ficou estampado a vergonha de ter lembrado daquele fato.
Isso mesmo, rapaz! Você teve acessos de risos. Não me socorreu. Por um bom tempo levei isso no meu coração. Mas, não tenho mais essa mágoa.” Olhou para o rapaz com compaixão.
Jacober cabisbaixo continuou a ouvi-la.
O segundo envelope registrou a morte do seu cão. Você lembra? Você deixou o Picolé amarrado num toco de ferro fincado no chão no seu quintal, sem água, num sol escaldante. O bicho literalmente derreteu. Você o colocou de castigo por ter feito cocô na calçada.”
Jacober abaixou a cabeça envergonhado. Tentando colocar seus pensamentos em ordem… “O que teria mais de horrível naquela maldita mala? Não conseguia recordar de nada.” Em seguida agradeceu a senhora e partiu aviltado.
Seguiu toda a linha da estação. Não tinha mais trens e nenhum vagão de carga aguardando. Estava muito cansado, exaurido, suas pernas estavam doídas e subitamente não conseguia ver mais o final da fila. Entrou em pânico, seu coração disparou e tudo escureceu. Ele estava mergulhado na própria escuridão.
Um, dois, três! Desfibrilador!”



sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Cinquenta e sete primaveras!




Hoje eu acordei com uma leve lembrança, de pelo menos cinquenta anos.
Uma nostalgia doída e ao mesmo tempo prazerosa. 
Lembrei de minha irmã caçula “ Susana” e eu, num vestido quadriculado, em cores azuis de duas ou mais tonalidades. Era os vestidos mais bonitos que tínhamos visto e vestido. Presente de minha mãe.
Eu acho que era Natal ou a entrada de um Novo Ano. Parecíamos dois pares de jarras, por dentro e por fora, tamanha era a nossa alegria nos dentes, alguns ainda de leite. Entretanto, minha mãe nesse dia estava acamada. Seu semblante era de dor. Eu não sabia se era dor física ou emocional. Olhei para minha mãe e vi tanta tristeza em seus olhos, que quase estragou o tamanho do meu contentamento naquele dia. Lembro-me como se fosse hoje as suas palavras: 
 “ Vai se divertir com sua irmã e se cuidem.” Nós íamos para uma festa na casa de um vizinho amigo.

Hoje, depois de tantas estações vividas e já sem minha irmã caçula e minha mãe, observo que as memórias vão ressurgindo de um vazio cheio de recordações.

sábado, 11 de novembro de 2017

Lembranças





Fecho os olhos
A saudade se repete
Retorno há um tempo
Sinto o morno vento
E tenho você
Ah! A saudade dói
Minha alma chora
E te busca sempre
Em lembranças guardadas
Que às vezes ofuscam
O tempo – Ah! O tempo
Por vezes demora
Por vezes evapora
Ah! A saudade dói
Não se define
Inverossímil eu diria
Dor que dói na alma
Vivenciadas nas horas calmas
Gravadas – Regravadas na mente
Que o corpo reclama – Sente
Ah! A saudade dói
Mas traz você de volta
Juntinho – Para perto de mim
Momento, segundos
Que são poucos
Tão-só
Tão-somente
Instantes eternos


LUZ








Luz
Luz dos olhos
Luz que conduz
Luz que desnuda
Um foco de luz
Luz que irradia paz
Luz que reluz a luz
Luz que produz luminosidade
Luz que ilumina cidades
Luz que dá brilho
Luz de fulgor
Luz do amor
Luz que ilustra
Luz que emite luz
Luz das estrelas
Luz de brilho
Luz que transporta
Luz que transcende
Luz que acende
Luz que ascende
Luz que pariu
Luz no ventre de Maria
Luz que irradia luz
JESUS!

Meu epigrama




Labirinto é um percurso
Entre idas e vindas entrelaçadas
De difícil saida

O caminho é místico – misterioso
Quem consegue sair dele
Pode se dizer: um triunfante

Vida – Labirinto
Quem entra tem que sair
Se nasce, morre para renascer




Solidão



Percebi que não sou nada
Uma gotícula de água
Num vasto oceano
Comparado a ele
Sou infinitamente quase nada

É tão difícil abarcar o porquê
Questionar, vasculhar
E nada entender
Tanta hipocrisia nas respostas
Vai compreender o ser

Hoje consegui fechar mais uma porta
Olho para o nada sem interrogação
Já não ambiciono coisa alguma
E de modo nenhum, tudo é quase nada
Não exigir nada, é alçar a liberdade

Consigo deitar no silêncio
Levitar o corpo da alma
Pensar que existo sem drama
Pois a vida é uma trama, cheia mistérios
Que quase ninguém leva a sério

Atualizo os meus pensamentos
Penso - tudo nos é concedido
E o que nos é dado sem nada exigir
É descobrir no valor do silêncio

Os encantos da solidão