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domingo, 13 de julho de 2008

Minha inesquecível irmã...



Dediquei estas páginas para falar de um ser que foi tão importante em minha vida e que hoje fui responsável em fazer o ato mais triste e talvez o mais macabro em toda minha existência...
Trabalhar no hospital durante alguns anos foi um ensaio inconsciente para tal façanha. O fato de conviver o dia-a-dia com seres humanos fragilizados, quebrados, sangrando, distorcidos, semimortos e mortos deixou-me com a sensibilidade anestesiada. Ao menos eu achava...

Chegara o momento da exumação dos restos mortais de minha querida e amada irmã. O dia amanheceu chovendo muito. Levantei da cama e fui até a varanda, à chuva encharcava as folhagens que cercava toda a casa e eu ali estava estagnada, observando, me sentia atordoada com os desencantos da vida... O céu claro escondia parcialmente a majestade o Sol, pois os seus raios denunciavam o seu olhar, iluminando em flash as gotículas que caiam em toda a vegetação que ali existia.

Fechei os olhos e pedi a Deus muita coragem para esta incumbência. O vento frio abraçava-me à pele e seu murmúrio gelado achegava-se aos meus ouvidos.Lembrei de minha irmã, suas fases, etapas tristes e alegres. Lembrei-me também da sua jovialidade e de seu sorriso, e de sua coragem para lidar com as circunstância da vida.

Ao chegar no cemitério, depois de toda aquela parte burocrática resolvida, quem já passou por esta situação entende bem o que estou descrevendo... fui para o final derradeiro... Minha irmã fora sepultada ao que se assemelha a uma caixa embutida “gaveta” onde a maioria dos esquifes é colocado pelos pés ou pela cabeça do moribundo. Não saberia esta informação com precisão, mas o seu féretro era guardado pela lateral onde duas placas de concreto protegiam- no.

Os dois rapazes intitulados para aquele ato, tinham cada um a sua tarefa. A princípio me afastei um pouco, um deles, com a ferramenta parecendo um machado tirava o cimento que desunia àquela hora as duas placas de concreto deixando a vista o seu tão frágil e fragmentado ataúde, que também morto e acabado fielmente abraçava o que restava de minha inesquecível irmã. Com os remanescentes pedaços permitindo-se ser ainda o guardião, fora até aquele momento resistindo ao seu ultimo compromisso... Em seguida o outro rapaz com as mãos nuas desvencilhava os artefatos que se juntavam aos restos mortais de minha irmã.

Na caixa de fibra de vidro que forrado por mim com um pano branco tendo o cuidado de perfumá-lo a conselho de uma amiga ia recebendo os ossos que dali pra frente perpetuaria a tarefa deste mais novo guardião.

Meus olhos estarrecidos e também de observadora testemunhavam o final de todos nós...
Fora colocado o crânio,parte de seus cabelos que não foram decompostos e também não saberia responder se eles o são, os ossos maiores e depois, mais ossos, ossos,ossos... as mãos daquele simplório homem procuravam os pequenos ossos que se confundia e se escondia nos amontoados de terra que ali estavam, levados por insetos ou frestas que serviram de porta para os grãos de areia conduzidos pelo vento. O vento que indiscretamente por algumas vezes observara e testemunhara aquela triste cena de sucumbimento da matéria.

Foram mil e cento e vinte e um dias até aquele exato momento. Nós sofremos, choramos, relembramos de sua existência sempre, revimos vídeos, fotos... Foram saudades que sufocamo-las em templos de orações. Enquanto ali um banquete que sustentava outros seres, micro organismo que fizeram de seu corpo pútrido sua própria resistência... e que fazem dessa sua tarefa um segredo de Deus... e que não podemos contestar e muito menos entender.

Mas ali estava aquele humilde homem dando continuidade com a sua pequena e tão grandiosa tarefa. Procurava minuciosamente por ossos tão pequenos e tentava de seu jeito explicar-me que o deslizar de seus dedos buscavam pedaços que outrora foram também dedos, e que por isso ele não usava luva, pois com elas era impossível percebê-los. Mas eu sabia o que ele queria dizer.
Ele procurava as falanges, os metatarsos, os metacarpos, os ossos do tarso, os ossos do carpo, que devido à decomposição dos nervos e músculos eles estavam livre e desapercebidos. Eu o entendia bem, pois era formada em técnicas da radiologia e que por esse motivo, indubitavelmente era obrigada a conhecê-los devido ao estudo de anatomia. Eram tão insignificantes misturados naquele punhado de terra, pedra e óvulos de insetos, que sua constituição de fosfato e de carbonato de cálcio eram insignificantes. Mas conhecedor de sua labuta e sabendo os que ali o assiste, sabia o quanto àquela atitude é extremamente importante.

No entanto meu pensar analítico me levava mais uma vez a indagar sobre a nossa existência, sobre nossas vidas. Como reagir diante de um espetáculo de terror! Avistar do que sobejou do ser que amamos tanto! O seu corpo fora o seu instrumento de vida, fora um bebe lindo, cresceu, de jovem amadureceu e agora virara pó. Mas o que dizer e pensar... esse ritual pertence a todos nós mortais...

Após serem colocados os restos mortais na caixa para serem guardados no “nicho”, lugar específico para guarnecê-los definitivamente, tive um vazio tão grande no peito, uma dor abstrata que doía a alma, mas que ao mesmo tempo fazia-me refletir sobre a vida... Essa ambigüidade de vida e morte, riso e choro, felicidade e tristeza que faz de nós humanos seres sensíveis e contudo fortificados por situações melancólicas como aquela.

Às vezes, ao questionarmos sobre a vida, intrepidamente temos resposta que nos da a certeza que não acharíamos em nenhum registro. Indagações como: Por que viver? Por que procriar? Por que morrer?Teríamos como seres pensantes, somente esse objetivo de vida? Sinceramente acho que não... Deus na sua infinita misericórdia não nos daria a vida apenas com esse propósito. Ele teria muito mais... mas como já citei em algum trecho anterior, seria esse segredo a ser por nós desvendado.

Enfim... depois daquele ato concretizado, consumado, agradeci a Deus por ter-me concebido forças. Eu estava ali de pé, firme, consternada confesso, entretanto fria exteriormente.
Olhei em redor... O cemitério era um lugar frio, macabro, mas tinha algo de poético, não em sua solidificação e aparência, mas algo em sua essência, que faz de todos nós um grande e velho amigo...Um filho pródigo ou não que sempre retorna a casa...

Ao caminhar para saída e ter como fim aquele fatídico desfecho, relembrei de momentos bons que tive com minha irmã... relembrei daquele tão recente momento... Meus olhos lacrimejaram, eu sabia que não era o fim... Pensei em Deus... Pensei na vida... Eu estava mergulhada no meu eu... Na certeza buscando respostas, no papel de uma fiel questionadora e não percebi que já havia passado do portão para fora, parei... e novamente meus olhos avistaram naquele quadro, a cena da exumação, meu pensamento era interrogativo, mas eu tinha que continuar a vida.
Entretanto alguma coisa tirou-me de meus pensamentos e emergi... uma bela borboleta voando. Suas asas planando no ar. O seu colorido estampava denotando a sua preciosa liberdade. Porventura saíra de seu invólucro, deixando de ser aprisionada. Quiçá abandonara o seu casulo... O mesmo ocorrera com minha irmã quando partira para o mundo espiritual.
O que eu acabara de testemunhar naquela ação da borboleta livre, era simplesmente o que acontecera em ambas situações... dentro e fora do cemitério... Minha irmã e a borboleta estavam livres...

Foi tenção de Deus... e percebi que a toda hora e que em todos os instantes de nossas vidas sempre temos respostas para aquilo que nos está afligindo, embora nunca damos atenção a esses pequenos detalhes...

Abasteci-me de fé. E sempre...Apercebo-me da presença de Deus e minha tensão oculta-se por horas, às vezes por longos momentos e deixo-me ser conduzida por essa força misteriosa e creio, ainda que por raros instantes, é o que nos torna cada vez mais fortes...



Em memória de


Emana dessa missiva
Minha paixão, minha dor


Mais nobre de todos os sentimentos – o amor
Essência para a vida, cerne da alma
Manancial de sobrevivência - vida e morte
Óbice para sobreviventes - começo e fim
Rompendo o invisível, sobrevive o espírito
Inopinadamente do corpo sucumbido
As vésperas de um sonho – sonhado


Diluindo da carne – o espírito imortal
Energia eternamente viva... abandona o ser material


Sopitando a inteligência do viajante
Unindo-se aos seus fieis veladores – os anjos
Secessão da alma do corpo, e dos entes
Abdicando-se do passado e do presente
Nefasto para quem fica sempre
Avindo talvez para quem vai


Ah! Que saudade é essa que permeia o peito
Revolve os dias e as horas
Aguerrido de uma força incomum, inerente
Umedecendo os olhos com lembranças ardentes
Jacente o corpo frio enrijecido
Originado para sua verdadeira pátria


Dilúculo final que dissipa a essência
Ascende, a alma liberta


Sem amplexos, sem despedidas
Incontestável ação dada por Deus – a morte
Lápide que guarnece o corpo
Venerando... Ao último dos abraços
Aquela que para nós nunca será esquecida...

2 comentários:

Kelly Gama disse...

Que Deus te cubra de força para seguir o seu caminho sem a tua amada irmã. A caminhada é árdua, a estrada é traçoeira, mas não impossível de ser vencida. Suzana certamente ficará orgulhosa de vc, onde ela estiver.

Face de Mulher disse...

De todos os acontecimentos da minha vida... entre todos... os que me fizeram chorar, nada, nada marcaram tanto e deixaram a minha alma nostálgica, como a morte de minha querida irmã!
As vezes a sinto tão perto de mim que percebo o que nos separa é apenas uma película que meus olhos não consegue penetrar... sinto na brisa sua presença e também seu afago.
Ainda que eu acredite que a morte não seja o fim de tudo, ainda assim nada consola a saudade que dói a falta de sua presença...