Eu recebi um telegrama comunicando o falecimento de um grande e velho amigo, e não há nada mais complexo quando você compreende que alguém importante em sua vida não faz mais parte do seu velho cotidiano.
Chegando ao velório notei que a capela ao lado velava pelo corpo de uma jovem. Tão jovem, que a dor dos pais transpiravam pelos poros que contagiavam os que ali estavam. Sai do velório de meu amigo e entrei no velório da tal jovem. Não era uma morte comum, talvez o tamanho da dor e do sofrimento dos que ali choravam fosse compreendida por curiosos como eu...
Começo por descrever esta história analisando como os pais atuais educam seus filhos de forma diferente, em se tratando de meninos e meninas. Apesar de estarmos em pleno século XXI, vivemos em um regime machista, onde nós mulheres, apesar de parecer contraditório, porque não me incluo nesse perfil, sendo mulher, é a maioria que alimenta esse comportamento, enfim, fomentamos o próprio ego dos homens. Uma circunstância própria para exemplificar é o fato de que meninos quando querem urinar, as mães os põem a fazê-lo a qualquer hora, a qualquer lugar! Testemunhas com os olhos de espectador acham graça daquele homenzinho. Os maus odores que circulam a cidade por onde deixa as marcas da má formação educacional é acometido pelos adultos machos de hoje.
Menina não pode, fica feio!
Com a emancipação das mulheres, algumas delas confundiram a liberdade com a vulgaridade, aí desencadeou em seus atos o princípio que o homem é que carrega menos culpa em sua forma de agir. Ora ! Amarrem suas cabras que o meu bode está solto! Antigo ditado e tão menos oportuno na atualidade. O engraçado é que muitas das vezes os que alimentam esse comportamento, tem uma cabra em casa, quer dizer, uma menina! E para aumentar a complexidade desse assunto, as drogas invadiram absurdamente nosso lar. O jornal estampa cada vez mais em suas manchetes, atrocidades cometidas através delas. As drogas têm o poder de despertar os mais primitivos dos instintos incutidos em nossa alma, o poder de matar. Vivemos esse cotidiano sem rédeas, sem freios, sem punição. Mas voltando para o velório que desencadeou esse meu questionamento.
Ainda na sala que velava o cadáver da tal jovem, aproximei de seu esquife onde dormia seu corpo o sono da morte. Entre condolências e burburinhos soube que tinha apenas dezoito anos, acabara de completar.
Maldito sábado! Maldito final de semana! Um colega seu convidara para uma noitada, um grupo de jovens decidiram sair para se divertir. Musica alta, corpos extravasando suores, e alguns deles, o seu próprio veneno. A menina que está preste a sair de cena não bebe, ou melhor, passou a noite toda bebendo refrigerante. Por de baixo dos panos, alguns jovens, entre eles o colega que a convidara, usa a mais solicitada e cobiçada droga da festa – o “Ecstasy”. Enlouquecidos e obsequiados, mergulham o comprimido no liquido doce e saboroso da ingênua moça.
Amanhece o dia. A menina sem entender nada, vê no seu corpo a própria vergonha desnudada, bulida. Seu corpo servira de orgia para diversos rapazes. Como se não bastasse toda a ofensa daquele sórdido ato, estava marcada na carne por queimaduras de cigarro e mordidas de quase canibais. Tinha sido consumida pelos rapazes e pelas drogas. Drogas que nunca tinha usado!
Não adiantou o apoio da família e nem dos poucos amigos. Os médicos nada puderam fazer. A psicanálise e a terapia não puderam conter o efeito naquele corpo machucado cuja alma já estava em estado de decomposição. A menina não suportou o destino que a vida lhe dera e na primeira oportunidade, na calada da noite, entrou no banheiro e consolidou o suicídio. Os pais a encontraram-na inerte para todo o sempre. No velório as bocas pequenas narravam cada um do seu jeito o fim trágico daquela jovem.
O que realmente desencadeou esse episódio? Teriam sido as drogas ? E se alguns rapazes tiveram tenção de usar a droga para conseguir o seu objetivo, não fica claro que a falta de caráter mediou o ato? É uma faca de dois gumes!
Chegou afinal a hora do sepultamento da menina, já que de meu amigo ainda restava meia hora, fui solicita aos meus princípios, porque aquela dor já me pertencia também. O esquife abraçava aquele corpo que outrora fora aquecido pelo amor de seus pais e seguia o seu fatídico derradeiro. Depois de todo o fato consumado e as coroas de flores ornamentando o túmulo, algo me chamou atenção. A mais bela das coroas tinha o seguinte dizeres:
Meu amor é você...
Embora os que te fizeram isso... Não saibam
Uberdade de dois corações enamorados
Amor de seu pai e o meu... nasceu você...
Momentos únicos vividos por nós três...
Obstante agora, o calor do teu abraço
Ruflando as asas da minha imaginação...
Ébanos demônios... que te abraçou a carne
Violentando o teu íntimo a ponto de sucumbir-te
Oh! Meu anjinho que agora dorme...
Colorindo o céu etéreo
Evangelizando para sempre os nossos corações...
Retornando para a capela onde velava o corpo de meu amigo. Olhei para o seu rosto pálido. Ele fora um homem maravilhoso. Bom pai, fora um enamorado marido enquanto durou. Em suma foi um homem exemplar e digno da educação que tivera. E analisando pelo prisma da educação, onde a culpabilidade de cada educador se a figura nos episódios de uma sociedade que cada vez mais estampam nos jornais os perfis de assassinos. É bom repensarmos no nosso papel de educador. A educação que ensinamos aos nossos filhos, estão conduzindo-os para que tipo de vida e trajetória?
Será que está tudo azul mesmo? Ou será que o rosa é que está fora de moda? Devemos refletir mais sobre o que podemos mudar sobre esse quadro. Ou melhor, que a pintura da vida o vermelho simbolize a paixão para retratar nossas histórias, e não fazendo dessa cor um símbolo de tragédia.
(Luiza Lozada)

4 comentários:
Suas palavras entorpecem.
Há tanto envolvimento que parece que essa tua ida ao velório dela foi real.
Um texto que fascina e choca ao mesmo tempo.
Uma combinação agridoce que poucos escritores sabem fazer.
As palavras nas tuas mãos tomam significados diversos, inúmeros...
Tomam formas, cores e texturas e parecem quase sair do papel.
Um grande beijo: Renata
Parte desta história é real.
Infelizmente a realiadade da joven assassinada foi um relato de um colega de trabalho, contando o desfecho da vida da filha de seu melhor amigo.
A parte fictícia é minha personagem no velório de um amigo e a minha presença no velório da jovem, pois conheci sua história meses depois.
Enfim foi uma forma de relatar o acontecido e mostrar como a droga funciona nos jovens e os aniquila sem piedade
Comovente como se entrelaçam a realidade e ficção,sentimento e dor. Parabéns Luiza,neste você realmente,você viu e compreendeu a sua dor e a do próximo.E transmite em palavras ao seu leitor a ter o mesmo sentimento.
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