Era noite de Natal, muitas luzes coloridas, lá de longe surgia, talvez à distância de uma quadra, não sei bem ao certo, uma melodia natalina chegando aos meus ouvidos, mansinha, entorpecente...
Era não ! Foi uma longa noite de reflexão. Meus grilos, meus insetos mentais questionando, perfurando minha caixa craniana, pressionando as massas cinzentas, até homogeneizar, unificar uma grande massa. Seria um delírio ? Não sei...
O vento morno tomava meu corpo num abraço amistoso, complacente a minha indignação. Tal façanha me fez de espectador de minha própria historia, ou melhor, a historia dos meus ascendentes, de que ponto teria partido e começado. Do lado paterno já era um fim sem começo, um lado que nunca conheci e é óbvio que me marcou muito e teve grande peso para formar minha personalidade fria e acometida.
Mas...Voltando as minhas indagações, fiz uma prévia reflexão sobre a data de Natal, além de ser um grande marco na historia da humanidade, é um período de verão, período em que as andorinhas em bando chegam por ocasião da postura. Depois de muito tempo... Sinceramente falando, que fui entender na íntegra esse ditado: "uma andorinha sozinha não faz verão !"
Eu costumo conversar com o meu lado invisível. Pode parecer demência ou arrebatamento do juízo por drogas, mas não é, acredito que todo ser planetário são dois em um. Isto é, o lado palpável, o lado que leva beijo e porretadas. O que sangra, o que é decepado, o que cicatriza e agüenta até fenecer. O outro lado não palpável vivencia todos esse sentimentos. Pode parecer absurdo mas o corte na carne, a ferida pútrida quem percebe é o nosso lado invisível.É esse lado que acumula e se renova por experiência. A maior prova disso tudo é quando dormimos, estamos latentes, porém visíveis. Esse lado não fenece nunca, pelo contrário, é o que está mais próximo ao Grande Arquiteto do Universo, o invisível ver sem olhos, sem lupa. O cego de nascença ver tudo e a todos. São muito mais sensíveis e consegue ir além de que os nossos olhos jamais alcançariam e no entanto são eles os deficientes.
Continuando... As exóticas andorinhas. Conheci um casal de andorinha, por sinal na visão de ainda menina, que belo par ! Sendo eu uma andorinha visionária, é verossímil que tenha exagerado na minha contemplação, isto é, metaforicamente no referencial as andorinhas familiares...
Num verão muito distante esse par de pássaros nasceu de seus respectivos ovos, cresceram, procriaram e fizeram de suas próprias vidas uma história, ou melhor estava previsto iniciar também a minha. Correspondente a essa, faltou pedaços danificados com o tempo que não permitiu que fossem emolduradas para sempre.
Houve um tempo difícil, mas não consigo me imaginar e nem entender as diversidades dessa época, ainda que consiga viajar entre literaturas diversas e transpor-me para alguns dos personagens de muito autores de países diferentes, não consigo retratar com fidelidade uma história da qual pertenço.
Essa geração de andorinhas desprovida de amor familiar povoa as mesmas cidades contemporâneas, vivem na era da informática, usufruem de aparelhos eletrônicos e digitais, cultuam a religião e se esquecem verdadeiramente de Deus e na integra não entendem o Evangelho de Jesus Cristo.
O planeta Terra gira enlouquecido... Observo os ninhos dessas andorinhas que descendem desse par de bicos, o macho voou tão alto que foi para o céu e não voltou, mas deixou a fêmea e doze andorinhas.
Essas doze procriaram e apartou-se por mundos diferentes. Umas comem alpiste e defecam ouro e outras comem ouro e defecam alpiste. A grande maioria desses pássaros sanguíneas e egocêntricas deixou em minha mente algumas interrogações... Uma, duas, ou três dessas andorinhas me parece equânimes, mas quem sou para enuncia-las se sou filha de uma das doze andorinhas.
Só... Consigo ver com tristeza a desunião de todas elas...O deslumbramento de umas por se acharem donos da verdade... Mas que verdade ? É lamentável ver tanta prepotência num bando de hipócritas que só conseguem acusar, criticar e ignorar os mais carentes de auxilio. Família que se diz cristãos... Uma citação do escritor Joseph Murphy sintetizaria com precisão o que penso em relação a esses falsos salvadores de almas... "Antes que se possa recuperar e ajudar outras pessoas, faz-se necessário tratar do seu próprio revigoramento em termos de sabedoria e de compreensão. Somente se pode dar aquilo que se possui. Freqüentemente, os pregadores da praça pública e os praticantes do bem estão apenas projetando sobre os outros suas próprias deficiências e limitações. O cego não pode guiar outro cego." As pessoas estão na maior parte do seu tempo preocupadas com os problemas dos outros e esquecem por vezes de ser felizes.Por essa razão penso que essas andorinhas não contribuíram para felicidades de outras que vieram e estão por vir...
Por hora preciso esquecer minhas frustrações pois é Natal...
Cada noite de Natal é mais uma oportunidade para refletirmos... Será que estaremos no próximo natal ?...
E assim me esqueço no tempo, recordo o pouco que convivi com meu avô e me gratifico de ter conhecido nele o pai que nunca tive.
Fecho os olhos, aprecio a moldura e a pintura da minha tela mental. Lá está o meu avô "pai Paulo", minha avó "mãe Nenê" e as doze andorinhas na janela...
(Luiza Lozada - 07/01/2002)

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