Páginas

domingo, 1 de outubro de 2017

Relato de um filho abandonado.










Vivo numa dimensão
Ainda que não posso vê-lo
Sinto-o
Exibe-me a luz
Estou num labirinto – Confuso
Não acho a saída
Quem fui eu ontem?
A pretexto de que e por que?
O presente está mórbido - Túrbido
Distante – O manto
Embaçado – Um tanto
Sou um ponto isolado no mundo
Esquecido - Esquisito
Onde estão as fadas?
Os santos e os guardas?
Que não me acolhe – E abraça
Quem fui eu ontem?
Pois muito já sinto-me culpado
Vejo na linha imaginaria
As bocas transparentes – Mudas
Não me sopram os segredos
Não apressa o socorro
Amenizando os medos
Momentos olvidos
Fecho os olhos
Abraço-me ao calor do sol
Sinto o seu suspiro morno
O teu olhar sobre mim
Luzes do seu contorno se achegam
No tímido vento
Aquecendo o meu pranto devagar – Lento
Quem fui eu ontem?
Merecer tanto castigo
O desprezo e o descaso
Tenho uma vaga lembrança
Uma sensação de que sei
Uma certa temperança
Nas respostas – Das quais perguntei
Ah! Que lembrança me traz
O roncar do pequeno aviãozinho
Estático – Eu o ouço tão longe
Uma saudade – O vazio, o nada
Sentimento de uma triste canção
Paliado em outros sons – Ouço
Inaudível a voz interior – Não sei
Às vezes, parece um delírio
A necessidade do corpo – Um vicio
Que domina e maltrata
Um sentimento de culpa
De um pai que abandona seus filhos

Sentimento que tenho por meu pai

Um comentário:

Luiza Lozada disse...

Há trinta anos escrevi esse texto. Hoje ao publicá-lo, pensei no meu pai. E como sempre analítica me perguntei: teria eu um destino diferente se ele fosse presente em minha vida?