Naufrágios de almas!
Lambe-me a alma!
Com sua saliva espumante
Salgada, tragando-me os nervos.
Traídos pelo desespero
Líquido que espreme
Todos os órgãos e almas
Sem preconceitos
Com mãos de malfeitor
Que aperta os braços e pernas
Que adormece às vezes os sentidos
Por vezes inunda, por vezes
Na maioria os sugam
Que fazes tu?
Descaso do sofrimento e dor?
Quem és tu deus solitário?
Legião de deuses solidários?
Que assistem e sacolejam
Corpos mortos e frios
Talvez o maior de todos
Imensurável cemitério liquido
Indubitavelmente o melhor
De todos os “pescadores”
Que seduz e reluz
Com seus olhares de prata
Divisando suas presas
Lá vai!
No ninar das ondas, os barcos
Os pescadores e suas redes
São suas próprias iscas.
Quantos mais já não dormiram
Em seus braços?
Em nós atados e laços
Quantos de nós tememos?
E lutamos junto de ti
Ganhando-te nos braços
Braçadas e pernas.
Tu não permitiste sequer, o gozo
Muitos cederam por fastio as tuas lambidas
Carícias e o roçar nas entranhas
Não percebendo a façanha
De um traidor.
Oh! deus das águas!
Que fulmina almas
Que poderes possuem?
Qual categoria de humor traz nos dentes
Estúpido, negro e horror
Quantos de nós?
Já sentimos seu frescor
O abraço de um sedutor
Oh! Mares! Mares!
Lambe-me a alma!
Com sua saliva espumante e,
Salgada
Meus delírios ofuscam os olhos
Sinto o amargor dos corpos, engolidos.
Incomensurável
Tão-somente! Abundantes gotas
Homogeneizadas ao sal
É uma grande porção fatal.
Fascinante, estonteante.
Os pensamentos criam asas
E esbarram-se
Na linha do horizonte
Estou cansada.
O sol aquece e adormece a coragem
Ah! Mares! Mares!
Que fazes tu além de sugar,
Violentar e seduzir corpos?
E quando não os espraiam
Arrota-os nas orlas, inchados
Perfurados por seus dedos marinhos
Quantos ainda estarão a seu bel-prazer?
Lambe-me a alma!
Com sua saliva espumante e salgada
Porque estou triste
Tristeza que não é só minha
Comoção de fluidos
Gotículas e mais gotículas
Libertadas ao mar
Arrebatadas pelo desespero
Arrastadas.
Levadas impetuosamente pelo medo
Acrescentadas, adicionadas.
Ao volume do mar.
Ah! Que fazes tu!
Nesse grande mistério, o segredo
Roubando-lhes os corpos
Tomando-lhes as almas
Sugando-lhes as gotas lacrimais
Acrescentada a ti mais gotas
Gotas, mais gotas.
Uma imensidade integrada de clamor
Nos soluços aflitos
Ah! Quanta beleza!
Sobre vossa magnificência!
Durante o dia, aquecido pelo sol
Encoberto por um lençol azul
À noite, encoberto por luzes de prata
Suas marolas, cantarola ao pé do ouvido
Abafando milhares de gemidos.
Visto do alto, um exânime amante
Um sedutor, arrebatador de cadáveres.
Oh! Imenso espelho d’água!
Lambe-me a alma!
Com sua saliva espumante e salgada
Misturadas com tantas lágrimas...
(Luiza Lozada - 29/07/2001)

Um comentário:
31/12/2004
Último dia do ano. Foi um ano pequeno para as alegrias. As tristezas, as violências, os descasos sobressaíram neste ano par. Um ano regido pelo planeta Mercúrio segundo os entendidos no assunto. Mas enfim são poucas horas que farão deste um recente passado.
Essa transição de final e inicio, novo e velho, nascimento e morte nos fazem reflexionar sobre o que fizemos e deixamos de fazer.
A entrada de mais um ano nos dá plena certeza que conseguimos emplacar o tão esperado e comemorado inicio do ano, velho agora.Afinal, que venha mais um ano novo. Que vivamos o presente! Um dia após o outro. Daqui para frente são minutos incognoscíveis, intransferíveis que temos que aproveitá-los quando não somos mais jovens ao menos na carne.A puerilidade e a jovialidade apesar de estar incutidas em nossas mentes, não nos dá o elixir do bem viver. Em um ponto de vista qualquer o bem viver é ter boa vontade. E ter boa vontade é ser legal e bacana consigo e com outros.
No ano vindouro quero ter boa vontade com muitos de meus objetivos... Um deles pressurosamente é mostrar-me como escritora. Que eu faça por onde e que Deus me ajude!
Mas hoje é um dia especial e por este motivo suas horas são sagradas, únicas...Por essa razão essa manhã já me sinto satisfeita com esse pequeno relato...
Já estamos no final do entardecer. Como moro em Sepetiba bem próximo a praia, se é que podemos chamá-la dessa forma já é bastante aglomeração de pessoas entregando suas oferendas a Iemanjá. E como sou mística farei o mesmo daqui um pouco.
Esta última semana do ano ficou marcada para sempre na história da humanidade. Devido ao maremoto que aniquilou milhares de pessoas no sul da Ásia e alguns países da África, a lembrança está nítida em minha mente... Ondas engolindo corpos e foi relembrando esse derradeiro espetáculo de medo que me fizeram vivenciar a tragédia ocorrida com um modelo brasileiro famosa. Não muito tempo atrás, mas terrivelmente lamentável. Devido à tempestade o helicóptero em que viajavam perdeu a força e caiu ao mar. O piloto e seu noivo foram sobreviventes.Ela bela não resistindo a força do mar sucumbiu na praia de Marisias em São Paulo.
Na época fiquei tão chocada com o acidente que fiz um poema em homenagem a todas as pessoas que se foram desta maneira. Que este poema se estenda a todas a essas almas do maremoto.
Que o Divino Mestre Jesus tenha piedade de todos que assistimos essa verdadeira exibição de pavor e que tenha principalmente misericórdia de todos que contracenaram com a natureza a protagonista enfurecida...
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