Cresci bebendo água de poço. A mesma água que também nos abraçava com seus braços gelados. No verão era gostoso, no inverno nem tanto. Hoje me lembrei dele ao ver sua boca calada, com seus lábios quase imperceptíveis, mergulhados na terra preta e com o seu rosto coberto de sarças verdes que foram arrancadas a enxada. A lâmina enferrujada cortava e expurgava as raízes das ervas daninhas que ali estavam, unindo-se as lembranças que vieram a tona com o que restou dele. Não sei bem, talvez oito ou treze manilhas que se uniam para fazer aquele corpo de concreto que atulhava água salobre e que às vezes defluía por sua goela afora. Agora soterrado por concretos.
Lembrei de minha infância e também de minha amada irmã, porque brincávamos em volta dele. A parte não submersa, sua altura chegava um pouco mais que nossas cinturas raquíticas. Detrás tinha uma vasta plantação de bambu que o adornava, lhe dando um charme campestre. À terra preta que hoje está variegada com restos de areia e concretos, era uma terra fértil que alimentava belos canteiros de hortaliças e verduras, regados pelas manhãs antes do sol aquecê-los e ao entardecer quando já estavam quase frios. Uma rotina que inebriava nossas tardes de verão com o cheiro da terra molhada. Ao redor do poço ficavam poças de água que escapava da caçamba que descia e subia freneticamente, o balde resistiu por muito tempo, porém era visível o amarfanhado no alumínio. Esquecíamos da vida na cava cheio de água com girinos de rãs acreditando serem alevinos, e de pés nus enterrados na lama enchíamos a lata com os girinos e depois os devolvia para onde tínhamos tirado.
Tínhamos muitas manhãs entretida com a natureza. Observávamos as libélulas pairadas no ar e ficávamos fascinadas quando elas fugiam de nossas traquinagens. Quando não tinha nenhum adulto por perto, debruçávamos no peitoral do poço para escutarmos nossas vozes ecoando no âmago de suas entranhas rígidas, quando ficava muito vazio. O retorno de nossas vozes nos fascinava e por ingenuidade não percebíamos o risco que corríamos se porventura ele quisesse nos engolir. Observávamos os grandes pares de olhos submersos na água. Podia ser de rã, provavelmente era, entretanto, não sabíamos distinguir naquela época. Os três pares de olhos fitavam-se e por algumas vezes ficávamos atemorizadas com aqueles olhos esbugalhados nos observando também. E assim foram muitos momentos regozijes com essa boca de concreto, que hoje está soterrada e muda.
Muitas vozes que conheci também já se silenciaram, obedecendo um tempo que eu tento compreender, nesse cenário que retoco e recobro momentos entorpecidos.
Assim como a boca do poço ecoou nossas vozes de meninas, no perpassar de minha vida, ouvi palavras duras, ternas, explicativas, atenciosas, lamurientas e tantas outras, hoje estão emudecidas.
Doravante, pego uma cadeira, assento ela e eu naquela boca soterrada. Fecho os olhos e me esqueço no silêncio, busco afincadamente ouvir e lembrar os sons e ecos daquelas vozes que fizeram parte do meu cenário de existência. Consigo ver os seus rostos translúcidos, quase esmaecidos, alguns ainda jovens, e outros bem envelhecidos, entretanto, suas vozes silenciadas, suas bocas fechadas, igualmente ao poço, todas soterradas, dimanando minhas lembranças.
O sol vai se pondo e a brisa morna me aquece em lembranças, ouço ao longe as gargalhadas e o alarido daquelas duas meninas que não se auscultam mais…
Luiza Lozada
07/07/2020

Nenhum comentário:
Postar um comentário