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sábado, 22 de agosto de 2020

A caixa dourada



 





Clarice e Bernardes, jovens noivos, estavam ansiosos pelo casamento que aconteceria no início do próximo mês. Ela, uma jovem estudante de medicina, aproveitava as férias da faculdade para organizar e conferir os pequenos e últimos detalhes da cerimônia.

Ele, por sua vez, dedicava-se com afinco ao trabalho, fazendo horas extras sempre que possível para garantir os gastos com sua viagem de lua de mel, que aconteceria em uma charmosa cidade do litoral paulista.

A vida de ambos estava uma completa loucura, mesmo com quase tudo pronto, pois os dois tinham cuidado de cada minúcia pessoalmente. Claro que o ideal seria contratar uma dessas empresas de cerimonialistas que pensam e preparam integralmente o casamento, mas o que sobrava de amor entre os dois, faltava em dinheiro naquele momento. Por esse motivo, eles cuidaram pessoalmente dos convites, das roupas, do buffet, da contratação do salão e até da música, já que Bernardes tinha um amigo contrabaixista que ofereceu tocar com a sua banda na festa como presente, a única coisa que eles se permitiram gastar um pouco mais foi com o fotógrafo e a filmagem porque queriam garantir que os registros que capturaria a alma daquele momento tão especial fossem impecáveis.

Nesse período conturbado, os noivos mal se falavam por telefone. Enquanto Bernardes gastava  o tempo em seu trabalho, Clarice pediu a ajuda da mãe e das duas irmãs caçulas e aproveitou para levar os presentes que tinham ganhado dos convidados, parentes e amigos que estavam na casa de sua mãe para a casa nova, que tinha ficado pronta há poucos dias. 

O carro estava abarrotado de embrulhos. Eletrodomésticos, utensílios de cozinha e muitas outras caixas que ainda não tivera tempo de abrir. Entraram no carro e partiram para o seu futuro lar. O percurso, de vinte minutos, distanciava-se a apenas seis quarteirões da casa de seus pais. Enquanto dirigia, observava os lindos Ipês amarelos que guarneciam cada rua em seu  trajeto. 

Ao chegarem no condomínio onde iria residir, o porteiro se dirigiu a jovem e entregou-lhe uma pequena caixa embrulhada com papel de seda dourado e decorada com um belo laçarote vermelho, daqueles que ficamos enamorados por tamanha destreza de quem o fez. A caixa era tão leve que não despertou nenhuma curiosidade na bela noiva.

Estacionou o carro em frente a sua casa e adentraram a sala. Clarice colocou a caixa dourada no aparador junto ao vaso de crisântemo rosa e seguiu o corredor adentro. Ficou horas ajeitando as coisas e guardando os presentes, quando sua mãe chamou atenção para que abrisse a caixa dourada.

Sentaram-se à mesa da sala de jantar e Clarice pegou o pequenino envelope preso à caixa o qual dizia:Minha linda neta, espero que gostem do presente surpresa! Com amor, Vô Aberlado.”.

Rasgou o papel açodada para saber o que continha naquela caixa misteriosa que de tão leve parecia uma pluma e, ao abrir a caixa, ficou perplexa com o que continha nela. Duas passagens aéreas de ida e volta. Boquiaberta, Clarice leu em voz alta para onde aquelas passagens os levariam “República Theca”. Ela chorou de emoção. Sequer tinha saído do Brasil e o avô lhe dera um presente daqueles. Por um momento, se preocupou em como conseguiria arrumar dinheiro para os demais gastos que teria pela frente com a viagem, mas a inquietação não durou muito, afinal, a caixa que era peso-pena, guarnecia em seu interior algo de valor inestimável. Ainda dentro dela, dobrados em seu fundo, estavam os papéis com as reservas dos hotéis, dos restaurantes, ingressos e um mapa com os principais pontos turísticos. Tudo absolutamente pago. 

O dia do casamento chegou e após uma cerimônia linda e impecável, os noivos saíram do local para trocar de roupas, pegar suas malas e rumarem para o  aeroporto de Guarulhos. Depois de uma viagem cheia de expectativas e ansiedade que durou longas horas,  já estavam hospedados e prontos para conhecer cada detalhe da cidade de Ostrava, em Morávia.

Os recém casados começaram sua aventura visitando os principais museus da cidade, e com audio-guides escutavam atentos a explicação sobre o museu Landek Park, que antes era usado como um antiga mina de carvão. Tiraram fotos das locomotivas, dos trenzinhos de carga e dos vários acessórios antigos desativados. 

Durante o tempo em que andavam pelas ruas, observavam a construção arquitetônica peculiar da cidade, a arquitetura industrial margeada por torres de mineração, usinas e alto fornos dava àquele cenário um aspecto steampunk. Enquanto pesquisavam por mais passeios, descobriram que naquela mesma noite aconteceria o Colours of Ostrava, um dos mais importantes festivais de música internacional da Europa. O evento, que  aconteceria no antigo polígono industrial de Dolní Vítkovice, recebia milhares de pessoas dos quatro cantos do mundo. Foi uma das experiências mais incríveis que os dois já puderam experienciar. 

No dia seguinte se prepararam  para novas aventuras naquela cidade aconchegante. Ficaram encantados com o The World of Miniatures. Um mundo de bolso em um jardim de Ostrava, pequenas aldeias entre jardins com exposições de flores completando  as miniaturas. Lindas margaridas e dálias que enchiam de contentamento o coração de Clarice, apaixonada por flores. Prosseguiram com o passeio e caminharam meia hora  para apreciar ao redor da exposição de água com um cruzeiro aparentemente ancorado no mar, enquanto as mangueiras e fontes de fluxo complementava a demonstração. 

A cada dia era uma novidade. O passeio a pé pelas ruas, a visita ao o antigo Café Habsburg que passou a abrigar a lindíssima livraria Academia, os restaurantes, as praças. Tudo foi devidamente registrados em fotos e filmagens, cada detalhe dos lugares, as comidas, as bebidas. Queriam catalogar todos os instantes daquela viagem extraordinária, como se quisessem reter nos retratos a felicidade daqueles momentos.

Na última noite foram jantar para se despedirem do local. O penúltimo jantar naquela terra maravilhosa e acolhedora. Penúltimo porque fizeram juras que iriam retornar àquele lugar que tanto amaram conhecer. Pediram um prato típico tcheco muito apreciado que, segundo os nativos era comparado à feijoada brasileira porque toda família tcheca tinha a sua própria receita e afirmavam categoricamente que preparavam a melhor svicková que iriam experimentar. Ambos ficaram satisfeito com aquela comida deliciosa que, mesmo não sendo da terra natal, tinha um gosto reconfortante de lar. No final, brindaram com uma cerveja local.

Semanas depois do regresso  ao Brasil, num dia qualquer, Clarice e Bernardes, nostálgicos, combinaram que fariam novas viagens para República Tcheca, pois queriam conhecer mais cidades daquele deslumbrante país e assim seguiram suas vidas com seus sonhos e projetos.

Os dias passaram e eles completaram um ano de casados. Clarice preparou um jantar a velas para surpreender o marido com uma receita de svicková que conseguiu achar na internet. Os dois jantaram e, antes de brindar, Bernardes viu na penumbra da sala, duas passagens aéreas naquela mesma caixa dourada que Clarice fez de talismã e que continuava no mesmo lugar, refletindo uma luz áurea e intermitente que exalava ares de bem-aventurança. 







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