Magrelas, despovoadas, com cara de meninos. Cabelos curtos e nucas raspadas. Pequeninos
soldados de saias. Daquele modo elas ficavam em frente à mesa de refeição. Sempre de pé. Ainda que
houvessem cadeiras vagas. Cenhos quase nos pratos, pratos quase nos cenhos. O calor das travessas
transpiravam temperos e seus olhos famintos comiam com suas bocas.
Poucos dentes, frinchas estrambólicas. De vez em quando as dobradiças finas e ossudas pendiam
pra frente e seus cotovelos chuchavam o tampo de fórmica da mesa.
Na cabeceira, o velho com barba rala levava à boca a colher de sopa libando o líquido quente. Na
outra extremidade, a prava, a que todos temiam. Ao redor deles, a parentada aboletava-se nos demais
lugares.
Aquela mesa ornamentava quatro refeições ao dia, das quais todos se deliciavam. O lanche da
tarde era o predileto da meninada. Um bule imenso sobre a mesa soprava um cheirinho delicioso do café
pelo seu bico, um tabuleiro de torradas com pães dormidos.
Inocentes cunhantã, nunca compreenderam o porquê os avoengos se tornam bruxos tangíveis
como os dos contos de fadas.
Durante suas meninices, nunca compreenderam muito bem o motivo da punição despropositada
de sua avó. Malograda com a vida árdua que levava, as usava feito de sacos de pancadas.
Guris não sentem rancor, sentem fome. E ditinho esqueciam rápido. Aquela mesma mão que
fazia arder seus couros com suas chinelas de pele, tinha a destreza de fazer deliciosas refeições. Mãos
alvas e miúdas seduziam estômagos. Bocas escumavam salivas.
No almoço de domingo, o angu feito no alho e óleo servidos nos pratos esmaltados e
superquentes deixava todos faceiros. Tudo e todos pela casquinha de alho tostado e glaceado no fundo da
panela.
Um bando de banguelas com suas colheres disputando aos tapas uma lasquinha.
O ancião franzino semeava sua própria lavoura. No arado, todo tipo de hortaliças e legumes,
frescos e naturais. Cingia a terra preta com múltiplas cores. Hoje, dorme sob ela.
As pitombas reminiscentes já não ardem mais, apenas reverberam num presente incorpóreo. No
batente da porta da cozinha, apoiada na bengala, um daqueles velhos soldados de saias, observa as
magrelas aos pés da mesa, o cheiro de café aguado invadindo todo aquele cenário... agora vazio.

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