governava o passadio, enquanto minha avó acomodava-se na outra extremidade. Ao redor deles, meus
tios e alguns primos aboletavam-se nos demais lugares. Eu e minha irmã caçula sempre comíamos em pé,
o prato quase encostado em nosso rosto, tamanha a nossa pequenez. Mesmo vagando cadeiras, sempre
ficávamos de pé.
Durante a meninice, nunca compreendi muito bem o motivo da punição despropositada, mas hoje
entendo porque minha avó nos castigava. Malograda com a vida árdua que levava, usava-nos de saco de
pancada.
Apesar de tudo, lembro com carinho das deliciosas refeições que ela, com suas mãos alvas e
miúdas, preparava. O angu salgado ao alho e óleo era disputado a tapas pelas criançada. Competíamos
para ver quem conseguiria raspar a panela que sempre ficava glaceada com uma camada de alho tostado,
que impregnava o ar. A boca salivava e o estômago aguardava ansioso aquela papa amarela e saborosa
chegar-se a ele.
Meu avô franzino semeava o terreno da casa com variadas plantações. Comíamos legumes e
verduras frescos e naturais. Os canteiros pareciam verdadeiras obras de artes. Todo tipo de hortaliças,
batatas, aipim, milho, tomates cingiam a terra com suas múltiplas cores.
Hoje, com a idade se aproximando a da minha avó, relembro o meu fascínio pelo café da tarde.
Um bule imenso à mesa soprando o cheirinho delicioso do café pelo seu bico, um tabuleiro de torradas
com pães dormidos.
Ao relembrar tão nitidamente essas reminiscências da minha memória, me vejo pequenina ainda,
aguardando no batente da porta da cozinha, inebriada pelo aroma inconfundível de café aguado de minha
avó e eu pronta para ficar aos pés da mesa.

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