Sou eternamente agradecida por meus avós maternos. Em sua existência de vida sempre foram almas grandes. Com toda vida miserável que viveram, uma vida dura de labuta e de muito sofrimento educaram doze filhos, e alguns netos, e bisnetos.
Lembro-me de uma casa modesta e das lamparinas de querosene que quando acesas adentravam nas penumbras escuras da casa e de minha alma. O ar se confundia com o odor sutil da fumaça daquele combustível que mantinha despretensiosamente o fogo no pavio, clareando ainda que pouco, o ambiente.
O silêncio tomava conta de toda casa quando caía a tarde. Após a janta e depois de toda louça lavada e guardada, e a cozinha impecavelmente limpa, íamos para a sala de jantar. Uma mesa grande e seis cadeiras, uma cômoda e uma cristaleira que exibia taças e louças pelas portas de vidro em desenhos alto-relevo. Móveis antigos de cor escura que se fosse comprar o hoje seria uma pequena fortuna, comparada com os de hoje que são descartáveis, não perduram mais de cinco anos devido à qualidade do material. Nas minhas lembranças vejo um quadro de parede. Uma pintura antiga, talvez renascentista, cópia com certeza, eu ficava hipnotizada com aquele quadro, minutos antes de começar o culto evangélico que meu avô presidia. Numa das cabeceiras, lia trechos da bíblia, e depois colocava com suas próprias narrativas, palavras de um homem com pouco estudo, porém com a retórica de um homem do bem e cristão. Naquela época com pouca idade achava chato, me distraía com as lagartixas que jogava suas línguas para capturar os insetos. Eu ficava admirando a destreza e agilidade delas. Seus grandes olhos em cima de suas cabeças e seus longos rabos finos circulando toda parede fazendo com que eu as seguisse com meu olhar de curiosa. Elas corriam de um extremo ao outro da parede, entretida com aquele momento, seria eu uma presa fácil se fosse um inseto. Todos ao final do culto tinha que fazer uma oração agradecendo e pedindo a Deus aquilo que fossemos merecedores. Nessa época aprendi falar com Deus com minha voz tímida e trêmula. Depois que orávamos um a um, nos recolhíamos para os quartos e dormíamos com os mosquitos azucrinando os ouvidos e picando nossas peles.
Nessa rotina viviam meus avós, tios, tias e minhas irmãs.
Meus avós tiveram uma vida árdua de trabalho braçal. Plantava o nosso sustento e criava animais. Pai Paulo e Mãe Nenê! Assim todos e netos, e bisnetos os chamavam. Nunca usamos as palavras avô e avó. Meu avô quando estava de folga de seu trabalho dedicava-se a colheita das verduras e hortaliças. Abarrotava seu carrinho de mão e saia pelos quarteirões do bairro para vender de porta em porta. Eu algumas vezes fora com ele e ficava admirada com aquele homem pequenino e franzino com tanta disposição para trabalhar. Educou doze crianças sem ajuda de governo ou qualquer coisa que fosse do gênero. E todos foram educados, respeitosos e do bem.
O carrinho sempre voltava vazio e meu avô retornava ao lar cantarolando algum hino que costumava cantar nos cultos do lar e da igreja. Ao seu lado eu o observava e sentia em sua voz mansa uma alegria que não sei mensurar lembrando hoje. Tantos anos se passaram e lembro dele com muita saudade. Quando ele faleceu, deixou um grande vazio em meu coração.
Tenho muita gratidão por ambos. Meu avô para mim, fora a referência de um pai, já que não lembro do meu e por ele ser ausente em nossas vidas. Minha avó nos maltratou quando criança e nutri certa época, ódio por ela. Mas, eu era criança e nessa idade não prestamos muito atenção nos adultos e muito menos em suas dores. Graças a Deus! Minha avó viveu por muito tempo e pude dissipar essa mágoa que nutri por muito tempo. Com a maturidade chegando, observei o quanto ela fora uma mulher sofrida com a vida. Ela ficara muitos anos sozinha depois do falecimento de meu avô e seus olhos expressavam muita gratidão por estarmos morando no mesmo quintal do terreno com ela e cuidar na velhice e na doença que trabalhava em silêncio. As netas que mais ela maltratou cuidou dela com muito carinho e sem rancor. Minha irmã Suzana era a que mais paparicava e fazia mimos para ela. Quando minha irmã faleceu de mau súbito, vi nos olhos azuis de minha avó tamanha tristeza e dor. Dali em diante todo amargor que eu sentira quando criança e adolescente por ela aquietou-se.
Anos se passaram e uma noite antes de minha avó ser internada por um câncer em fase terminal eu fora ao quarto dela para saber como ela estava. Deitada de lado com a cabeça no travesseiro seu olhar era vago e compreendi que minha avó “Mãe Nenê” estava se despedindo daquela vida de sofrimento. Olhei para dentro dos seus olhos e tive a percepção que ela sabia ser o fim. Perguntei se ela estava se sentindo bem, consentiu vagarosamente com a cabeça que sim. Permaneci alguns minutos deitada ao seu lado e acariciei sua nuca coberta de fartos pelos brancos e mentalmente me despedi e perdi perdão a ela por não entender a sua atitude para comigo e minha irmã. No dia seguinte foi a última vez que a vi com vida. Ajudando a colocá-la no carro rumo ao hospital era a certeza que não voltaria mais para casa.
Fecho meus olhos e vejo nitidamente o olhar azul-turquesa de minha amada avó se despedindo da vida naquela noite.

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