Meu período de trabalho era um tanto exaustivo. Permanecia acordado durante vinte e quatro horas ininterruptas num repetitivo vai e vem. Ora eu estava na recepção, ora me encontrava na sala de exame radiografando pacientes com fraturas, luxações, etc.
Tal correria fazia de minha atuação um verdadeiro atleta. Sou técnico em radiologia de um grande e movimentado hospital do Rio de Janeiro.
A história que vou lhes contar, aconteceu numa época em que eu estava tão quebrado financeiramente, e não pude recusar esse convite tão inusitado.
Naquela época em que inúmeros “nãos” ecoaram dolorido em meus ouvidos e que as turbulências em meu orçamento eram constantes. Resolvi investir, ou melhor, insistir em outra categoria de remuneração diferente a minha profissão, já que não estava tendo muito sucesso para ingressar num segundo emprego dentro do meu ofício.
Trabalhando vinte e quatro horas semanais, o que restava das horas livres eram usadas para meu descanso e para o ócio.
Num desses dias rotineiros, depois da maratona de trabalho, peguei meu trem de volta para casa. Era mês de fevereiro e a temperatura de 40 graus do estafante verão carioca arrebatava qualquer um.
Olhei ao redor. Havia dezenas de pessoas aglomeradas no vagão do trem e eu tinha a impressão que éramos bonecos de panos amontoados naquelas latas unidas por elos sendo puxados pelo maquinista!
O sol nos seguia sem intervalos, e o calor fritava nossos cérebros e meus pensamentos sem condolências. Os que viajavam sentados iam para lá e para cá numa alucinante coreografia rítmica. O balanço do trem e o som das rodas trilhando a linha faziam dessa complexidade um ninar coletivo. Eu em pé observava aquela invejável situação, já que a minha situação era efeito dominó. Eu me segurava ao ferro parte fixada no assoalho e a outra no teto. O trem chocalhava e abruptamente parava nas estações, os que estavam na frente viam de encontro uns aos outros até chegarem até nós que estávamos na parte de trás do vagão.
A grande minhoca de ferro deslizava em curvas e retas e a cada parada, uns poucos saiam e outros em maior quantidade entravam, fazendo com que nos comprimíssemos mais ainda.
Bom, já era praticamente a metade da viagem e eu não sei ao certo de onde vinha aquela voz, e percebi que se aproximava cada vez mais.
— Telmar! Telmar!
Alguém conseguira me achar naquele enlatado comprimido.
Olá! Camarada, quanto tempo? A voz ainda abafada por estreitados corpos suados e malcheirosos de um dia inteiro de trabalho árduo se aproximava.
Dei uma esquivada para trás com a cabeça e vi que a voz era de um amigo que há muito tempo não o via. Devia ter uns cinco anos que tínhamos perdido o contato.
— Fala Armando! Quanto tempo meu amigo! O que você anda fazendo? Mal dando para olhá-lo, já que não podíamos nem nos mexer.
Fomos até a Central do Brasil conversando. Ele ficou sabendo que eu estava procurando emprego para complementar minha renda e a partir daí trocamos telefones e fiquei de procurá-lo no dia seguinte.
Desci na Central do Brasil e fui a pé até minha residência que era bem próximo dali, enquanto Armando pegou o ônibus para o bairro da Glória.
No dia seguinte fui ao encontro dele. Juntos seguimos até o apartamento de Leila, sua namorada. Após alguns minutos de conversa, descobri que ela era técnica de futebol feminino e que uma de suas jogadoras tinha se contundido e ela estava desesperada, pois, precisava urgentemente de uma substituta.
A coincidência dessa história é que Armando tinha me encontrado ao acaso. Quando moleques, jogávamos futebol de salão e fiquei conhecido como “Telminho, o canhotinha de ouro”.
Armando e Leila me convenceram a substituir a menina que estava faltando na equipe de futebol. Podia parecer loucura, mas não, ou foi? A verdade que desde garoto, sempre fui apaixonado por futebol, e além da grana que era irrecusável, não consegui dominar meu instinto pela paixão e pelo desafio e no final daquela tarde já decidira me transformar em Telminha.
Uma semana antes do jogo, fiz depilação nas pernas, nos braços e no rosto. Devido a minha estatura alta e ao sutiã de enxerto por baixo do uniforme rosa, fiquei parecendo uma daquelas modelos fotográficas e de passarela. No cabelo, foi usado um aplique ruivo muito bem feito e no final da transformação, ao ver-me na imagem refletida no espelho, ninguém desconfiaria que Telminha não era uma mulher. Quer dizer: eu!
A história terminaria feliz se eu me desse por satisfeito com o pagamento pelo feito e tivesse ido embora depois do jogo, mas a diversão e o prazer da vitória de 4 a 0 não me deixaram ir, e fui comemorar com o resto da equipe num abastado churrasco com os adversários.
Depois de muitas cervejas e incansável lero-lero, alguns, caras começaram a se engraçar pelas meninas de ambas equipes, o que me incluía também, e a partir daí as coisas não deram mais certo. Quando descobriram que a ruiva gostosa não passava de um latagão, foi murro para cá, trampesco para lá. Foi vergonhosamente desmascarado o logro que dera a vitória para o nosso clube.
O desfecho dessa vergonhosa história foi parar na delegacia e depois da ocorrência registrada por ambas as partes, fomos socorridos e levados justamente para o hospital em que eu trabalhava. A cena seria cômica se não fosse tão trágica: eu, na maca com um dos falsos peitos na mão, fui motivo de chacota para meus colegas de profissão assim que entrei na sala de raio-x.
Armando estava totalmente quebrado e as meninas estavam com escoriações, incluindo Leila, a técnica do grupo.
E essa história é relembrada e contada para os novos profissionais e todos desde a direção do hospital a qualquer outro funcionário me conhece por “Telminha a canhotinha de ouro”.
Tal correria fazia de minha atuação um verdadeiro atleta. Sou técnico em radiologia de um grande e movimentado hospital do Rio de Janeiro.
A história que vou lhes contar, aconteceu numa época em que eu estava tão quebrado financeiramente, e não pude recusar esse convite tão inusitado.
Naquela época em que inúmeros “nãos” ecoaram dolorido em meus ouvidos e que as turbulências em meu orçamento eram constantes. Resolvi investir, ou melhor, insistir em outra categoria de remuneração diferente a minha profissão, já que não estava tendo muito sucesso para ingressar num segundo emprego dentro do meu ofício.
Trabalhando vinte e quatro horas semanais, o que restava das horas livres eram usadas para meu descanso e para o ócio.
Num desses dias rotineiros, depois da maratona de trabalho, peguei meu trem de volta para casa. Era mês de fevereiro e a temperatura de 40 graus do estafante verão carioca arrebatava qualquer um.
Olhei ao redor. Havia dezenas de pessoas aglomeradas no vagão do trem e eu tinha a impressão que éramos bonecos de panos amontoados naquelas latas unidas por elos sendo puxados pelo maquinista!
O sol nos seguia sem intervalos, e o calor fritava nossos cérebros e meus pensamentos sem condolências. Os que viajavam sentados iam para lá e para cá numa alucinante coreografia rítmica. O balanço do trem e o som das rodas trilhando a linha faziam dessa complexidade um ninar coletivo. Eu em pé observava aquela invejável situação, já que a minha situação era efeito dominó. Eu me segurava ao ferro parte fixada no assoalho e a outra no teto. O trem chocalhava e abruptamente parava nas estações, os que estavam na frente viam de encontro uns aos outros até chegarem até nós que estávamos na parte de trás do vagão.
A grande minhoca de ferro deslizava em curvas e retas e a cada parada, uns poucos saiam e outros em maior quantidade entravam, fazendo com que nos comprimíssemos mais ainda.
Bom, já era praticamente a metade da viagem e eu não sei ao certo de onde vinha aquela voz, e percebi que se aproximava cada vez mais.
— Telmar! Telmar!
Alguém conseguira me achar naquele enlatado comprimido.
Olá! Camarada, quanto tempo? A voz ainda abafada por estreitados corpos suados e malcheirosos de um dia inteiro de trabalho árduo se aproximava.
Dei uma esquivada para trás com a cabeça e vi que a voz era de um amigo que há muito tempo não o via. Devia ter uns cinco anos que tínhamos perdido o contato.
— Fala Armando! Quanto tempo meu amigo! O que você anda fazendo? Mal dando para olhá-lo, já que não podíamos nem nos mexer.
Fomos até a Central do Brasil conversando. Ele ficou sabendo que eu estava procurando emprego para complementar minha renda e a partir daí trocamos telefones e fiquei de procurá-lo no dia seguinte.
Desci na Central do Brasil e fui a pé até minha residência que era bem próximo dali, enquanto Armando pegou o ônibus para o bairro da Glória.
No dia seguinte fui ao encontro dele. Juntos seguimos até o apartamento de Leila, sua namorada. Após alguns minutos de conversa, descobri que ela era técnica de futebol feminino e que uma de suas jogadoras tinha se contundido e ela estava desesperada, pois, precisava urgentemente de uma substituta.
A coincidência dessa história é que Armando tinha me encontrado ao acaso. Quando moleques, jogávamos futebol de salão e fiquei conhecido como “Telminho, o canhotinha de ouro”.
Armando e Leila me convenceram a substituir a menina que estava faltando na equipe de futebol. Podia parecer loucura, mas não, ou foi? A verdade que desde garoto, sempre fui apaixonado por futebol, e além da grana que era irrecusável, não consegui dominar meu instinto pela paixão e pelo desafio e no final daquela tarde já decidira me transformar em Telminha.
Uma semana antes do jogo, fiz depilação nas pernas, nos braços e no rosto. Devido a minha estatura alta e ao sutiã de enxerto por baixo do uniforme rosa, fiquei parecendo uma daquelas modelos fotográficas e de passarela. No cabelo, foi usado um aplique ruivo muito bem feito e no final da transformação, ao ver-me na imagem refletida no espelho, ninguém desconfiaria que Telminha não era uma mulher. Quer dizer: eu!
A história terminaria feliz se eu me desse por satisfeito com o pagamento pelo feito e tivesse ido embora depois do jogo, mas a diversão e o prazer da vitória de 4 a 0 não me deixaram ir, e fui comemorar com o resto da equipe num abastado churrasco com os adversários.
Depois de muitas cervejas e incansável lero-lero, alguns, caras começaram a se engraçar pelas meninas de ambas equipes, o que me incluía também, e a partir daí as coisas não deram mais certo. Quando descobriram que a ruiva gostosa não passava de um latagão, foi murro para cá, trampesco para lá. Foi vergonhosamente desmascarado o logro que dera a vitória para o nosso clube.
O desfecho dessa vergonhosa história foi parar na delegacia e depois da ocorrência registrada por ambas as partes, fomos socorridos e levados justamente para o hospital em que eu trabalhava. A cena seria cômica se não fosse tão trágica: eu, na maca com um dos falsos peitos na mão, fui motivo de chacota para meus colegas de profissão assim que entrei na sala de raio-x.
Armando estava totalmente quebrado e as meninas estavam com escoriações, incluindo Leila, a técnica do grupo.
E essa história é relembrada e contada para os novos profissionais e todos desde a direção do hospital a qualquer outro funcionário me conhece por “Telminha a canhotinha de ouro”.

Um comentário:
Muito bom , porém merecido pra ele 😃
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